Especial

Não vai ter inflação, eles disseram...

Desde de outubro do ano passado, as projeções de inflação para este ano vêm sendo ajustadas para cima, segundo pesquisa FOCUS realizada pelo Banco Central; indicando que, mesmo no meio de uma baita crise, o cenário será de preços mais elevados em 2021. Enquanto isso, as projeções para 2022 ainda seguem ancoradas (veja no gráfico 1).

Quem nos acompanha há mais tempo se recorda que já havíamos dado sinais de preocupação com esse tema em meados do ano passado. E, infelizmente, o cenário está se confirmando. Tanto que o Banco Central elevou a Selic para 2,75% na reunião da semana passada, com a intenção de conter uma alta mais acentuada da inflação no médio prazo. Ponto para o Banco Central, que além de ter sido bastante proativo, foi também muito transparente, deixando claro que fará novos ajustes nas próximas reuniões por conta de sua crescente preocupação com o quadro inflacionário. Lembrando que a principal missão do Banco Central brasileiro é conduzir a política monetária para garantir que a inflação permaneça próxima da meta que, para 2021, é de 3,75% (e que será mais alta, #prontofalamos).

No especial deste mês vamos detalhar alguns motivos que levaram à pressão inflacionária observada recentemente, mesmo em um cenário de crise e baixo crescimento econômico e, por isso, a decisão do Banco Central de elevar a Selic foi acertada.

Melhora lá fora e mais pressão nos preços das commodites à vista:

Junto com o avanço da vacinação e algum controle da pandemia em diversos países, sobretudo na China e nos EUA, virá também o aumento da demanda por commodities de forma geral. Inclusive, já vimos um choque nos preços das commodities no ano passado. Mais demanda, maior o preço. E o Brasil é um grande exportador de commodites, principalmente, as agrícolas, ou seja, a pressão nesses preços deve continuar e o repasse ao consumidor acaba sendo inevitável. O grupo dos alimentos industrializados tem como base algumas matérias-primas dependentes de commodities agrícolas, como milho, soja e trigo, por exemplo, que são precificadas em dólar e já subiram muito desde o início da pandemia, veja no gráfico 2.

A taxa de juros em nível ainda baixo somada à pandemia sem fim e à atual crise política brasileira contribuem para um cenário de taxa de câmbio depreciada por um período de tempo muito incerto. Por isso, a expectativa é que o repasse da alta nas commodities em reais (ou seja, o preço em dólar das commodites multiplicado pela taxa de câmbio também pressionada) para a inflação ao consumidor deva continuar.

E câmbio mais alto = mais inflação. Por quê?

Em nosso último especial falamos sobre a desvalorização da nossa taxa de câmbio e os motivos que nos levam a acreditar que ela ainda permanecerá em patamar elevado por algum tempo, podendo comprometer ainda mais a evolução da inflação nos próximos meses. Mas o que o câmbio tem a ver com a inflação? Muito. Grande parte dos produtos que compõe a cesta de nossos indicadores de inflação tem seus preços atrelados ao dólar, tanto direta como indiretamente. Por exemplo, o Brasil importa muitos componentes eletrônicos vindos da China, esses produtos são vendidos em dólar e têm um impacto direto nos preços dos nossos produtos industrializados. Para se ter uma ideia, o IGP-M, que tem em sua cesta 60% de produtos industriais, subiu mais de 20% no ano passado.

E a alta nos preços dos alimentos? No ano passado, vimos forte pressão no grupo alimentação, tanto por conta do aumento da demanda ao longo da quarentena, quanto devido ao repasse do aumento nos preços das commodities agrícolas (que falamos no parágrafo acima) para os preços dos produtos industrializados. Enquanto o trigo “commodity” subiu mais de 10% em 2020, o pãozinho francês teve um aumento de mais de 5% no mesmo período, de acordo com o IBGE. E todos se recordam também da história do arroz, não? Então, meus amigos, não tem como negar que uma hora a alta do câmbio chega nas nossas compras; e já chegou!

Vale lembrar que nossa taxa de câmbio vem se desvalorizando de forma mais intensa há mais de seis meses, tempo suficiente para que haja repasse, mesmo com a economia enfraquecida. Note no gráfico 3 como os preços dos produtos comercializáveis vêm subindo de forma mais clara desde maio do ano passado, acompanhando o comportamento do dólar.

Auxílio emergencial – é bom, mas é ruim!

O auxílio emergencial já despejou na mão da população brasileira mais de R$ 300 bilhões em 2020 e deve colocar cerca de R$ 50 bilhões neste ano. Veja bem, não estamos falando que o auxílio não deveria ser oferecido, muito pelo contrário, foi e ainda é necessário. Contudo, impulso fiscal “na veia”, como gostamos de falar, tem um efeito quase que imediato na inflação, pois gera consumo - observe no gráfico 4 o comportamento da inflação nos anos em que houve aumento de gasto público. Ainda que a atividade econômica esteja fraca, “dinheiro na mão é vendaval”!!! Resultado? Mais consumo e mais pressão na inflação.

É o que temos observado e que, possivelmente, poderá se agravar nos próximos meses com a aprovação da extensão do auxílio, ainda que em valor menor.

E aquela palavrinha que é um palavrão para a inflação: a inércia!

Os economistas chamam de inércia o processo em que a inflação passada se reflete nos preços presentes. A forma mais comum da inércia aparecer é através da indexação, ou seja, o aluguel deste ano vai ser mais alto simplesmente porque o IGP-M subiu muito no ano passado. O mesmo vale para os preços administrados, como a conta de luz, por exemplo. Grande parte das concessões de energia elétrica são indexadas ao IGP-M, que como vimos subiu mais 20% no ano passado e, com certeza, será repassado às tarifas de energia (já está sendo!). Mas, além da indexação, a inércia também influencia a expectativa dos agentes, ou seja, a cabeleireira que precisa fazer seu reajuste anual vai aumentar seu preço de acordo com o tanto (ou mais) que a inflação subiu no ano anterior e assim por diante. Note no gráfico 5 que os preços dos serviços subiram muito, mesmo em anos em que o PIB foi mais fraco. Parece que esse quadro irá se repetir neste ano. Inércia? Temos e não negamos!

Conclusão

Muitos disseram que não haveria inflação, batemos o pé contra isso e, infelizmente, estávamos certas. A receita da taxa de câmbio - commodities precificadas por demanda da China e expansão fiscal - dificilmente daria outro resultado. A vantagem é que o Banco Central não se fez de desentendido e já começou a demonstrar a mesma preocupação, porém dificilmente teremos inflação dentro da meta neste ano. Não colocamos como preocupação número um para o Brasil, mesmo por que temos a pandemia como maestro, mas só humildemente aconselhamos a não esquecermos dessa variável que já tanto incomodou a história da conjuntura econômica brasileira... Talvez preocupação número três...

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Estrategista de Comex

Mestre em relações internacionais (USFC), Doutor em direito internacional (USP) e pós-doutor em Direito do comércio internacional (Georgetown University), Barral foi secretário de Comércio Exterior do Brasil de 2007 a 2011. Atualmente é, também, diretor no Departamento de Comércio exterior da FIESP e conselheiro da Câmara de Comércio Americana.

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