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Mercado de trabalho: pode chorar, pode chorar...

Parece hit de carnaval ou grito em estádio de futebol, mas é sobre a taxa de desemprego mesmo que estamos falando, que junto com a redução da renda e o aumento da pobreza extrema foi um dos reflexos mais perversos que a pandemia trouxe para o Brasil. Sem contar, é claro, o grande número de vítimas que a COVID-19 fez ao longo destes últimos 17 meses. Um quadro difícil e grave, que pode levar anos ou até décadas para que entre em um ciclo de recuperação. No relatório de hoje, vamos detalhar o que aconteceu com os dados de emprego e renda, principalmente, no decorrer dessa crise, e tentar entender como se dará a reconstrução de uma conjuntura fortemente afetada.

A taxa de desemprego, medida pelo IBGE, chegou ao patamar de 14,7% no período mais crítico da pandemia e, apesar de já ter mostrado algum alívio nos dados mais recentes (13,7% em julho/21), segue em nível elevado. Lembrando que se não fosse o desalento, a taxa de desemprego estaria ainda mais alta, em 18,6%, veja o gráfico 1. O que isso quer dizer? Desalento é quando a pessoa simplesmente deixa de procurar emprego por acreditar que não que conseguiria uma vaga. Na maioria das vezes, a pessoa se acha muito jovem, muito idoso, pouco experiente ou acredita que não encontrará oportunidade no local onde vive.

Contudo a combinação de ganhos assistencialistas (leia-se auxílio emergencial), somado ao desconforto com a economia, e talvez o medo de ficar doente, agravaram ainda mais esse quadro, gerando o maior patamar de desalento da história no ano passado. Assim, essas pessoas simplesmente saíram das estatísticas de desemprego.

Atualmente, com o avanço da vacinação e a retomada da economia, o desalento vem diminuindo - mais um fator para a permanência da taxa de desemprego em patamar alto. Para se ter uma ideia, o Brasil hoje está no bloco das economias com maior taxa de desemprego do mundo, de acordo com levantamento do Country Economy, veja no gráfico 2.

Além disso, o quadro de elevado desemprego veio acompanhado de uma redução no rendimento médio da população que pode ser explicada por dois motivos, principalmente:

1 - O primeiro deles é que parte significativa da expansão mais recente da ocupação vem dos setores informais da economia, ou seja, o nível de ocupação pode até ter crescido recentemente com a retomada econômica, porém, comum conjunto de trabalhadores com menor remuneração, normalmente ligados a trabalhos informais sem carteira assinada, veja o gráfico 3.

2 - O segundo, e não menos importante, motivo da atual queda no rendimento está ligado ao aumento da inflação. Embora no início da pandemia tenha sido observado um aumento na renda - impulsionado pelo auxílio emergencial – os dados mais recentes mostram que não só a renda vem desacelerando, como a inflação está rodando em patamar muito superior ao da renda, veja no gráfico 4. Ou seja, o rendimento médio do trabalho está sendo consumido pela alta dos preços.

Agora, se você conseguiu chegar até aqui e ainda não ficou chateado, vamos te contar a parte boa. Com o avanço da vacinação no País indo muito bem, alguns dos setores mais prejudicados no início da pandemia vêm sendo destaque positivo nos dados mais recentes do mercado de trabalho. O setor de serviços, por exemplo, foi o grande destaque positivo do mês de agosto. De acordo com os dados do Caged divulgados pelo Ministério do Trabalho, houve geração de mais de 180 mil novos postos de trabalho formais no setor de serviços. Além disso, o segundo maior crescimento do emprego formal ocorreu no setor de comércio, com saldo de mais de 70 mil novos postos de trabalho formais. E não podemos deixar de mencionar o setor da construção civil, que tem mantido um bom desempenho de contratação desde meados do ano passado.

CONCLUSÃO

A recuperação do emprego no Brasil ainda vai demorar, seguindo o ritmo lento e gradual da própria economia que ainda está caminhando a pequeninos passos de tartarugas. Mesmo porque o mercado de trabalho tem uma característica de ser defasado. Ou seja, em uma recuperação econômica, ele é um dos últimos indicadores a melhorar, pois os ofertantes de vagas em geral esperam ter certeza da recuperação para começar a contratar. Mas acreditamos, ou temos a esperança carnavalesca e a torcida futebolística, típica de todo brasileiro, que ela virá. Como vimos nos dados apresentados anteriormente, alguns setores podem ser destaques para o futuro da nossa economia e, desta forma, contribuírem para dar um empurrãozinho extra no mercado de trabalho. Mas, também, sabemos que estamos muito dependentes da evolução das reformas trabalhista e tributária. Então o caminho será longo. Mas isso é assunto para outro relatório especial.

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Economista formada pela USP, com mais de 15 anos de experiência nas área de Economia e Finanças, com foco em análise macroeconômica, resultando em amplo conhecimento do mercado bancário.

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Mestre em relações internacionais (USFC), Doutor em direito internacional (USP) e pós-doutor em Direito do comércio internacional (Georgetown University), Barral foi secretário de Comércio Exterior do Brasil de 2007 a 2011. Atualmente é, também, diretor no Departamento de Comércio exterior da FIESP e conselheiro da Câmara de Comércio Americana.

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