Relatório Especial

Fluxos de investimentos: para onde está indo o dinheiro? E o câmbio?

Neste mesmo período do ano passado, trouxemos aqui evidências da forte queda de fluxo de investimentos no mundo, motivada pelas incertezas do estouro da pandemia de COVID-19, e que explicou boa parte da forte depreciação das moedas ao redor do globo. Coincidentemente, 12 meses depois, quando eventualmente atualizaríamos esse relatório, o tema “fluxo de capitais” está na moda no Brasil.

Não é para menos, o fluxo financeiro aumentou muito no último mês, refletindo o apetite às ações das empresas brasileiras, e deu força para a taxa de câmbio querer testar US$/R$5,00, após fechar 2021 em US$/R$ 5,58! Porém a análise dos dados de fluxo de investimentos do mundo, ainda não sugere uma explosão no apetite ao risco. Vamos dar uma olhada:

 

FLUXO DE INVESTIMENTOS NO MUNDO: COMO FOI EM 2021?

 

O mundo pós-pandemia ainda não aconteceu de fato, pois a doença ainda está entre idas e vindas, mas cada vez mais os investidores estão dispostos a seguir seus aportes mesmo com a situação no radar. Dito isso, o fluxo de investimento direto estrangeiro global se recuperou fortemente em 2021, mas a recuperação é altamente desigual entre regiões e países (veja no gráfico 1).

De acordo com o Relatório Global de Investimento da Conferência da ONU sobre Comércio e Desenvolvimento, Unctad, os fluxos de Investimento Direto Estrangeiro (IDE) devem ter se recuperado 77% em 2021 versus 2020, atingindo US$ 1,65 trilhão ante US$929 bilhões em 2020 – vale ressaltar que a cifra alcançada em 2020 foi, pela primeira vez desde 2005, abaixo de US$ 1 trilhão.

Contudo a recuperação ainda foi pautada em economias mais seguras. As economias desenvolvidas tiveram o maior aumento, com o IDE atingindo cerca de US$ 777 bilhões em 2021 – que embora seja 200% acima do observado em 2020  é apenas 6% acima do nível pré-crise.

E, mesmo assim, na Europa o nível não voltou ao pré-crise. O destaque mesmo ficou para economias desenvolvidas fora do eixo Europa-EUA. Adicionalmente, segundo o relatório, o influxo nos EUA devem-se ao aumento nas fusões e aquisições (M&As) transfronteiriças.

Nas economias em desenvolvimento (ou emergentes) foi observado aumento 30% do IDE entre 2020 –2021, para quase US$ 870 bilhões. O destaque novamente ficou na Ásia, em especial na China. A China registrou uma entrada recorde de US$ 179 bilhões em 2021 impulsionada pelo forte IDE de serviços. E, além da China, a Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) retomou seu papel como motor decrescimento do IDE na Ásia e globalmente, com entradas de 35% e aumentos na maioria dos membros.

E nós? Bom, a América Latina teve um crescimento percentual até maior que a Ásia (cerca de 50% acima de 2020), trazendo o nível de IED próximo, mas inferior ao pré-pandemia. Do mesmo modo, o Brasil viu o IDE dobrar em 2021, mas as entradas permaneceram abaixo dos níveis pré-pandemia (confira no gráfico 2).

Além do mais, o Brasil vem ficando para trás na escolha de se investir em relação a pares da América Latina. Enquanto em 2019 o Brasil foi responsável por 43% do fluxo para América Latina (~70bi de ~160bi), em 2020, isso caiu para cerca de 38% (~38bi de~101bi) e 33% em 2021 (~50bi de ~150bi).

A perspectiva de final de pandemia ao longo de 2021 e, portanto, melhora nas perspectivas econômicas no mundo, diminuiu a aversão ao risco. Um exemplo disso foi o aumento considerável de fusões e aquisições no período, conforme gráfico 3. Embora tenhamos participações constantes entre as regiões, os maiores negócios ficaram nos EUA, sugerindo que o montante das Américas deve-se muito mais à América do Norte do que à América do Sul e por consequência Brasil. Isso reforçou o movimento de alta de taxa de câmbio que vimos no Brasil ao longo de 2021.

FLUXO DE INVESTIMENTOS NO BRASIL: SITUAÇÃO 2021 E O QUE ESPERAR PARA 2022?

 

Em 2021, o fluxo de capitais no Brasil começou a melhorar e voltou ao patamar positivo no segundo semestre do ano (considerando a soma em 12 meses). A melhora do fluxo veio marcada por entradas no mercado acionário, o que se intensificou no início de 2022. Antes da crise investimentos em ações não costumava ser a vedete do investimento estrangeiro no Brasil, em detrimento da alocação em fundos de investimento. Mas, conforme o apetite a risco foi voltando, o capital se concentrou em títulos de dívida e em ações, como pode ser observado no gráfico 4.

Embora o patamar da Bolsa de Valores esteja alto, perto do observado no pré-crise (ao redor de 110 mil pontos), e tenha ajudado nas últimas semanas na valorização do real ante o dólar, o nível da taxa de câmbio ainda está alto e, portanto, conjunturalmente, sugere que algo ainda está errado e tem espaço para ajuste. Quero dizer que, a taxa de câmbio acaba por nos mostrar que a despeito de um bom momento na Bolsa de Valores, o Brasil ainda não é a principal escolha como alocação de investimento e capital. A decisão desse fluxo de capital virá por uma história positiva a ser contada. Vejam o gráfico 5.

CONCLUSÃO

 

Neste ano, teremos eleições presidenciais, situação que geralmente causa incertezas nos agentes. Para quem acompanha o mercado de câmbio, a palavra incerteza vem acompanhada de diminuição de fluxo de investimentos, sobretudo, para países emergentes e mais arriscados. Ora, não é para menos, quando estamos em um ambiente de incerteza, nada melhor do que seu porto seguro, não é mesmo? Por consequência, a evolução da taxa de câmbio está altamente ligada ao fluxo de investimentos para o País. Quanto maior o fluxo, mais provável que a taxa de câmbio caia, e o inverso também é verdadeiro. Assim, olhando nosso calendário econômico, tanto o fluxo de capital como a taxa de câmbio podem sofrer fortes oscilações nos meses à frente. Porém passada a fase de incertezas, acreditamos que seja possível ver a taxa de câmbio abaixo de US$/R$ 5,00 pós-eleições --- mas, de novo, depende da história que será contada, do resultado das urnas, e por aí vai...

 

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Mestre em relações internacionais (USFC), Doutor em direito internacional (USP) e pós-doutor em Direito do comércio internacional (Georgetown University), Barral foi secretário de Comércio Exterior do Brasil de 2007 a 2011. Atualmente é, também, diretor no Departamento de Comércio exterior da FIESP e conselheiro da Câmara de Comércio Americana.

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