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Brasil: os otimistas são ingênuos, e os pessimistas amargos

Somos fãs do Brasil, nos orgulhamos de ter nascido em terra próspera, com sol e cheia de desafios. Amamos a música que esse país nos proporciona, as artes coloridas e as religiões cheias de significados. E é por isso que nos ressente tanto a trajetória econômica a que muitas vezes fomos colocados. Por isso que começamos esse texto com uma citação maravilhosa de Ariano Suassuna, que dizia assim: “Não sou nem otimista, nem pessimista. Os otimistas são ingênuos, e os pessimistas amargos. Sou um realista esperançoso. Sei que é para um futuro muito longínquo. Sonho com o dia em que o sol de Deus vai espalhar justiça pelo mundo todo”; e, nesse contexto, que somos incansáveis em apontar nossa visão de erros e quem sabe um dia colher acertos.

As confianças do consumidor e do empresário voltaram acrescer. Os dados começaram a apontar uma retomada, e os otimistas já comemoravam uma recuperação em formato “V”. Ingenuidade de quem já viu o Brasil alçar belos voos de galinha nas últimas décadas. Os dados na verdade estavam mostrando que benefício fiscal ajuda, e muito, nos momentos de crise. Lembrando que o auxílio-emergencial alcançou 60 milhões de pessoas, que receberam pelo menos R$ 600 por mês, desde abril. Foi muito dinheiro injetado na economia.

Mas a situação já manda sinais de alerta, sobretudo olhando para o mercado de trabalho. A taxa de desemprego, hoje em 13,3%, poderia estar acima de 20% se não fosse o movimento de desalento, ou seja, se não há procura por emprego, não há desemprego. A combinação de ganhos assistencialistas (ora, se o governo está me dando dinheiro, para que vou procurar emprego?), um certo desconforto com a economia e, por fim, o próprio medo da ficar doente devem ter deixado pessoas em casa, gerando o maior patamar de desalento da história.

Esse movimento pode ser observado no gráfico ao lado, vejam. Se as pessoas não tivessem desistido de procurar emprego por conta dos motivos citados acima e o crescimento da população economicamente ativa estivesse no mesmo ritmo de antes da crise, ou seja, ao redor de 1,0% ao ano, a taxa de desemprego estaria hoje em 22%.

Além disso, toda a discussão fiscal desencadeada por conta do gosto tomado pelo governo por medidas assistencialistas coloca o gato de qualquer otimista no telhado. Ora... terminaremos 2020 com nossa dívida pública/PIB em cerca de 100%, o que inviabiliza qualquer discussão de gastos ou de furar o teto do gastos, pois isso certamente levaria o Brasil à bancarrota.

E, nesse sentido, um outro grande sinal de alerta é o apetite ao risco dos investidores aos países emergentes. Segundo dados calculados pelo Banco Central do Brasil, entre março e abril deste ano, o apetite de se investir em emergentes chegou ao seu menor grau em anos – compreensível. Porém, quando se divide em grupos de emergentes por sua dívida publica, nota-se claramente que o apetite ao risco por países cuja dívida/PIB está em média 35%, já voltou a patamares pré-crise. O mesmo não é possível afirmar de países com essa estatística em média de 60% do PIB. Não precisamos nem falar em qual grupo o Brasil está (veja no gráfico abaixo).

Por outro lado, não podemos ser pessimistas e amargas em dizer que não houve surpresas positivas nesses últimos meses. Houve sim uma capacidade maior do que esperado do brasileiro, aquele acostumado a adversidades, em se superar, em se acomodar no estranho. Há setores que estão funcionando muito bem e driblaram todas as restrições de mobilidade impostas durante a pandemia. Houve investimento em tecnologia, houve superação pessoal. Houve Brasil.

Assim, não somos pessimistas, mas tampouco otimistas. Preferimos ser realistas, com a esperança de que as decisões futuras serão mais acertadas e que voltaremos a ter atração decapitais no Brasil, empregos e crescimento. E que a justiça se espalhe pelo mundo.

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Economista formada pela USP, com mais de 15 anos de experiência nas área de Economia e Finanças, com foco em análise macroeconômica, resultando em amplo conhecimento do mercado bancário.

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Mestre em relações internacionais (USFC), Doutor em direito internacional (USP) e pós-doutor em Direito do comércio internacional (Georgetown University), Barral foi secretário de Comércio Exterior do Brasil de 2007 a 2011. Atualmente é, também, diretor no Departamento de Comércio exterior da FIESP e conselheiro da Câmara de Comércio Americana.

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