Comércio exterior:  o que muda com a pandemia

Falar de comércio exterior sem mencionar China e Estados Unidos é tarefa impossível. A disputa entre as potências é o grande tema e o mundo inteiro assiste como o grau de conflito entre elas vai se medir. Na mesma cena, a pandemia força uma transformação das relações comerciais e desenha novas oportunidades de negócios.

Justamente para falar do contexto e ajudar importadores e exportadores a mapearem os principais pontos, o Blog conversou com Fernanda Consorte, economista-chefe do Banco Ourinvest, e Welber Barral, que chegou recentemente para complementar o Núcleo de Especialistas do Ourinvest (NEO) e assumir o cargo de estrategista de Comércio Exterior. Confira a seguir.

A nova ordem do comércio exterior

A OMC (Organização Mundial do Comércio) projetou uma queda perto de 20% da corrente de comércio neste ano por conta da pandemia. Para os especialistas, o momento desafiador vai resultar em ao menos duas mudanças importantes: revisão dos fornecedores e realocação dos empregos.

No começo da pandemia muitos países adotaram medidas protecionistas, como a paralisação da exportação de medicamentos e de alguns alimentos. A tomada das decisões unilaterais na tentativa de proteger cada nação culminou em distorções significativas que passam por supply chain, oferta de alimentos, medo de desabastecimento,elevação de preços dos alimentos, e outros. Todos os negócios ganharam peso novo.

“O mundo notou um risco da dependência de poucas fontes de fornecedores. Vejo um processo de revisão de cadeia em andamento, que pode ser uma oportunidade para o Brasil se inserir como uma opção em regiões onde é pouco presente”, explica Barral.

Há muitos terrenos além do eixo China e Estados Unidos que o País pode explorar. Por exemplo, um dos grandes exportadores de carne para Ásia é a Austrália, que navega praticamente sem concorrência. “O Brasil tem capacidade e competitividade para entrar nesses mercados. O argumento de ser um fornecedor alternativo é importante e tende a abrir portas”, diz o estrategista.

O segundo fenômeno impulsionado pela pandemia é uma possível realocação de empregos. Estados Unidos e Europa estão dando incentivos altos para atrair de volta parques fabris para suas regiões. A ideia é atrair investimentos, trazer novos empregos e fazer a roda da economia girar.

Nessa toada o Brasil perde destaque, uma vez que tem um custo alto de instalação e é reconhecido pela dificuldade de fazer negócios. “A aprovação de uma reforma tributária, que visa simplificar e não reduzir os tributos, já seria uma oportunidade de contar uma boa história para o investidor estrangeiro”, diz Fernanda.

China, EUA e eleições - e como o Brasil fica nessa história

A nova formatação do comércio exterior também passa pela relação entre chineses e americanos. O processo eleitoral dos Estados Unidos é aguardado ansiosamente para dar pistas sobre o andamento do embate com a China, que já culminou em inúmeras sanções comerciais.

Segundo Barral, quem quer que seja o vencedor das eleições americanas a disputa ainda vai continuar. “A grande questão é que um democrata poderia trazer mais previsibilidade e adotar medidas mais clássicas. Isso se opõe ao comportamento de Donald Trump, que tem muitos rompantes e acaba trazendo reações exageradas de mercado”, diz.

A insegurança trazida pela situação entre China e Estados Unidos tem efeito no mundo todo. “Isso provoca aumento de custos de matéria-prima, oscilação no valor de câmbio, alta nos preços de seguros, distorção da logística e muito mais”, diz Barral.

Por outro lado, a briga entre as potências acabou dando oportunidades para outros países. O Brasil, por exemplo, aumentou significativamente a exportação de carnes para a China, ocupando o espaço deixado pelos americanos.

Para Fernanda, o protecionismo dos dois países não ajuda e ainda vai movimentar muito a pauta global de importações e exportações. “A pretensão de produzir tudo internamente e endurecer fronteiras para fortalecer a indústria não existe. Somos globalizados e o comércio internacional é essencial”, afirma.

Autores

Michele Loureiro

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