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Recuperação econômica - quanto vale um índice?

Recentemente, percebemos que há uma onda de otimismo em relação a crescimento econômico por parte dos nossos colegas economistas. Infelizmente, não estamos nesse time. Embora haja sinais de recuperação, não conseguimos achar que crescer ao redor de 2% em 2020 seja extremamente positivo, e que somente o canal de política monetária será suficiente para destravar a economia dessa vez (considerando a baixa taxa de juros).

Há questões estruturais que precisam ser endereçadas, sobretudo no tema investimentos. Para crescermos com “sustância”, precisamos de investimentos na economia, desde infraestrutura até em empresas privadas. Para isso, precisamos de recursos públicos, internos, externos, de diversas fontes, e essas fontes precisam acreditar no “case Brasil”. Verdade que as reformas em discussão têm esse papel, mas a escolha de investimento passa também por certa estabilidade política, no que o Brasil tem patinado. E as decisões governamentais ainda afetam, e muito, a capacidade do Brasil em atrair negócios.

Por exemplo, no mês passado, o Banco Mundial divulgou o relatório nomeado de “Doing Business”, que avalia 190 países sob o ponto de vista empreendedor e mede o impacto das leis, regulações e da burocracia no funcionamento das empresas. Entre os itens avaliados estão o número de dias gastos na abertura de empresas e em pagamento de impostos; a obtenção de alvarás de construção; a conexão com a rede elétrica e o registro de uma propriedade; a obtenção de crédito e a execução de contratos e resolução de insolvência. Os resultados não foram muito animadores.

Vale mencionar que, entre 2017 e 2018, tivemos uma melhora importante desse indicador, pois aparentemente havia uma percepção do governo anterior (sob o comando de Michel Temer) de melhorar a capacidade de atrair negócios ao Brasil. Pelo jeito, perdemos isso no governo atual. Vejam:

O Brasil melhorou de posição em três índices: obtenção de alvará de construção; registro de propriedade; e abertura de empresas.

Ficou estável nos itens que medem a capacidade de resolução de insolvência; e de pagamento de impostos.

Mas piorou: nos indicadores de facilidade do comércio internacional; na obtenção de crédito; na execução de contratos; na proteção de investidores minoritários; e na obtenção de eletricidade.

No índice geral, o país passou da 109ª posição em 2018 para a 124º neste ano. Somo piores que o Panamá, Uganda e Senegal (cujos PIBs são inferiores a 3% do PIB brasileiro!!).

Classificação sobre a facilidade de se fazer negócio no país em questão (índice “Doing Business”):

Deveríamos estar mais bem posicionados, não? Mas por que estamos tão mal e o que podemos fazer para melhorar?

Vivemos tempos difíceis. Embora nossa taxa de juros esteja no patamar mais baixo da história e a inflação bastante controlada, a confiança do empresário segue em nível muito baixo, em linha com a piora no índice do Banco Mundial, e mostrando que o ambiente para se fazer negócios/empreender no país ainda é bastante adverso. Enquanto o empresariado se sentir desconfortável para investir, dificilmente veremos forte crescimento econômico. Nesse sentido, quando olhamos para os investimentos, embora tenha havido uma melhora significativa desde o início do ano passado, o patamar ainda é baixo e a recuperação está se mostrando muito lenta.

Assim, se almejamos uma posição melhor no ranking do Banco Mundial, precisamos nos esforçar mais e fazer a lição de casa direitinho. Em primeiro lugar, precisamos que as reformas (assunto mais que batido), sobretudo a tributária, sejam de fato implementadas. Precisamos de comprometimento do Governo e precisamos de fluxo de investimentos estrangeiros. À medida que, sobretudo o tema fiscal, entrar na pauta não somente das discussões, mas também as medidas começarem a ser implementadas, a confiança dos agentes pode melhorar e o Brasil se sobressair diante dos demais emergentes, fugindo um pouco da volatilidade do mercado internacional.

Será que estamos excessivamente pessimistas e dando peso demais a isso? Quanto vale esse índice? Vale mais que o impulso dos saques do FGTS na economia? Considerando que há um problema de percepção do Brasil pelos investidores, e precisamos de investimentos... Achamos que sim, esse índice vale muito...

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Economista-chefe

Economia para todos é o lema da Fernanda. Com ampla experiência no mercado financeiro, conhecimento técnico apurado e linguagem simples, a autora contribui para a tomada de decisão de clientes e empresas que necessitem desse suporte.

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Economista

Economista formada pela USP, com mais de 15 anos de experiência nas área de Economia e Finanças, com foco em análise macroeconômica, resultando em amplo conhecimento do mercado bancário.

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Welber Barral

Estrategista de Comex

Mestre em relações internacionais (USFC), Doutor em direito internacional (USP) e pós-doutor em Direito do comércio internacional (Georgetown University), Barral foi secretário de Comércio Exterior do Brasil de 2007 a 2011. Atualmente é, também, diretor no Departamento de Comércio exterior da FIESP e conselheiro da Câmara de Comércio Americana.

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