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Por que mesmo o Brasil é (eternamente) o país do futuro?

Uma vez, li a seguinte frase: “O brasileiro é o povo mais otimista e mais ansioso do mundo. E de tanto pensar no futuro, esquecemos de agir no presente”, e achei que fazia muito sentido, macroeconomicamente falando. Somos esperançosos por natureza — mesmo porque acreditamos que pular 7 ondinhas no dia 31 de dezembro é capaz de fazer milagres —; então deixamos para o próximo ano, próximo ciclo para uma melhora repentina. Contudo, esperar ou “dar um tempinho”, como pediu nosso ministro da Economia, tem causado uma paralisia presente.

Não à toa, desde a recessão econômica que aconteceu entre 2015 e 2017, estamos crescendo timidamente ao redor de 1%. E pior, toda vez que se aproxima a hora de pular as 7 ondinhas, o mercado passa a reduzir as projeções de crescimento econômico para o ano seguinte, deixando a recuperação para frente. Afinal de contas, o Brasil é o país do futuro. Mas parece que será eternamente.

Em números, começamos (nós, economistas) 2019 projetando PIB de 2,3% e 2,8% para 2019 e 2020, respectivamente. E nos meses seguintes percebemos que estava “puxado” e passamos a baixar as expectativas para 2019, e neste momento, o mercado já acredita que em 2020 um crescimento de 2,0% é mais factível (e vai baixar, podem apostar!) —e que maior que isso, só em 2021 mesmo...

Mas por que temos esse padrão? Bom, ao longo da história da economia brasileira notamos vários motivos, como corrupção, populismo exagerado, interesses políticos acima de interesses sociais, etc. Mas gostaria de me ater ao momento atual: quando o Brasil escolheu o novo governo nas eleições de 2018, estas vieram marcadas também pelo alto grau de renovação do Congresso, sugerindo um certo cansaço por parte dos brasileiros desse padrão de esperar sempre que o melhor está somente no futuro. Foi um indicativo de que não era o momento de esperar as simpatias e crenças de virada do ano, mas agir no presente.

Contudo, esse ritmo não parece concatenado com os 3 Poderes, embora seus discursos tentem dizer isso. De fato, esse clima turbulento em Brasília — desde crise fiscal a questões políticas — tem afetado o desempenho econômico. O indicador de incerteza da economia calculado pela FGV (IIE-Br) tem estado constantemente acima dos 110 pontos, corte do qual a incerteza é considerada elevada.  

Tanto é verdade que a FGV desagregou o índice entre incerteza política e fiscal, e apenas em 2019 (jan-ago) incertezas políticas acumulam alta de 10%, enquanto o de incerteza fiscal avança 2,2%.  Ou seja, meus amigos, os discursos com promessas liberais de reformas e privatizações não estão enchendo barriga.

Acredito que as declarações polêmicas e passíveis de discussões infinitas e estilo dos principais representantes do governo tenham afetado de forma considerável a reputação do Brasil, a ponto da inclinação do Governo a reformas (que são bem-vindas e necessárias) estar sendo deixada em segundo plano, na percepção da população e investidores. Claro que há os simpatizantes — hoje estimados em ~30% da população —, mas o fato é que esses abalos (queda de popularidade do Presidente, rixa da família Bolsonaro com parte do PSL, Congresso demandando benesses por certa falta de articulação) nos impedem de prosperar no presente, e de novo deixarmos para o futuro se encarregar da situação.

E a visão internacional tampouco é positiva. Fora os indicativos de saídas constantes de fluxo financeiro do mercado brasileiro, as projeções de órgãos internacionais também mostram falta de apetite ao Brasil. Por exemplo, nesta semana o FMI revisou sua projeção de crescimento econômico brasileiro em 2020 (de 2,4% para 2,0%). Verdade que o cenário internacional não está propício para países emergentes em geral (como a desaceleração da China, que ocorre por conta da adoção de medidas regulatórias do setor financeiro pelo governo de Pequim e de disputas comerciais com os EUA), porém o próprio FMI apontou que “fatores idiossincráticos” também foram negativos para o crescimento do Brasil no começo deste ano. Uma forma delicada, educada e politicamente correta de dizer que o nome do Brasil está “sujo” por aí.  

E, de uma forma mais clara e enfática, a consultoria britânica Economist Intelligence Unit (EIU), em relatório recém-divulgado, com perspectivas (não tão boas) para o Brasil no período de 2020 a 2024, destaca que o presidente Bolsonaro (classificado como “uma figura impulsiva”, no texto) enfrentará mais problemas de governabilidade. Acreditam que há risco importante de que as disputas políticas podem bloquearem a agenda legislativa, incluindo reformas econômicas.

Querem mais motivos para jogarmos as expectativas de crescimento econômico para outro ano? Assim, parece que, mais uma vez, o Brasil continuará sendo o país do futuro, com problemas sérios no presente. A esperança ainda não acabou, dá tempo de revertermos o cenário, mas precisamos de mudanças, não podemos nos eximir de culpa. Não temos um tempinho.

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Economista formada pela USP, com mais de 15 anos de experiência nas área de Economia e Finanças, com foco em análise macroeconômica, resultando em amplo conhecimento do mercado bancário.

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Estrategista de Comex

Mestre em relações internacionais (USFC), Doutor em direito internacional (USP) e pós-doutor em Direito do comércio internacional (Georgetown University), Barral foi secretário de Comércio Exterior do Brasil de 2007 a 2011. Atualmente é, também, diretor no Departamento de Comércio exterior da FIESP e conselheiro da Câmara de Comércio Americana.

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