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2021: para alinhas as órbitas dos planetas?

Se 2020 não estava nas previsões nem dos mais renomados gurus da astrologia, que dirá na bola de cristal dos economistas! Haja dummies  para incorporar nos mais nobres dos modelos econométricos. Nos resta reconhecer, humildemente, que erramos. Erramos no começo, erramos no meio e é possível que a gente cometa algum erro também no final, que ainda está por vir e sequer sabemos quando.

Contudo se é possível encontrar algo positivo nessa história toda, foi a surpreendente capacidade de recuperação e adaptação da nossa economia. É claro que passamos por um período bem ruim e que, com as restrições de circulação na maioria das cidades, muitas empresas foram fechadas e empregos foram perdidos. Mas o fato é que a retomada da atividade econômica está ocorrendo mais rapidamente do que o esperado inicialmente e a recessão será menos profunda do que imaginávamos que seria lá no começo da pandemia. O FMI chegou a projetar uma recessão de mais de 9% para o Brasil em seu relatório trimestral publicado em junho, mas já revisou para -5,8%, no último relatório.(Veja a evolução das projeções na tabela ao lado). Hoje, o relatório Focus do BCB mostra que a mediana das projeções do mercado está em -4,41%.

É importante destacar, entretanto, que há (e, possivelmente, continuará existindo) uma enorme diferença na recuperação entre os segmentos da atividade econômica com o setor de serviços, por exemplo, exibindo uma velocidade de recuperação mais lenta do que a verificada no setor industrial e no comércio varejista. Mas, ainda assim, deveríamos aplaudir de pé a incrível recuperação do comércio e da indústria. Sem tapar o sol com a peneira sobre o restante do setor de serviços, que ainda vai levar um tempo para se recuperar. (Veja os índices de volume nos gráficos).

A rápida reação de alguns setores foi reflexo das medidas econômicas e emergenciais adotadas pelo governo, dentre as quais destacamos: 1. os programas de crédito, que foram superimportantes para a sobrevivência de muitas pequenas e médias empresas; 2. o auxílio-emergencial, fundamental para a manutenção da renda média do brasileiro (ver gráfico abaixo), e 3. o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda, que possibilitou a suspensão do contrato de trabalho e a redução de jornada com pagamento de uma complementação por parte do governo, e ajudou a evitar maior perda de vagas neste ano. Com isso, contribuiu também para a recuperação do emprego formal nos últimos meses (ver gráfico abaixo).

No entanto, mais que do as medidas, acreditamos que o famoso “jeitinho brasileiro” também contribuiu para que o tombo não fosse ainda maior. Ou seja, foi o dono do restaurante que fechou, que passou a vender marmita, foram os milhares de lojistas que se adaptaram, como foi possível, para começar a vender on-line ou de porta em porta, foram as academias com venda de treinos ”indoor”, e por aí vai. Com isso, a roda gigante da nossa economia continuou girando, embora em ritmo muito mais lento e deixando paralisada uma engrenagem aqui outra alí.

Então, queridos leitores, sabemos que nem tudo são flores nesse cenário. Somos esperançosas de que estamos trilhando um caminho para a recuperação, em grande medida porque surfaremos a onda de melhora que está vindo do exterior com o início das campanhas de vacinação pelo mundo. Contudo, como sempre falamos aqui, ainda há muito trabalho pela frente e um crescimento sustentado da nossa economia vai depender muito da evolução da pandemia e das vacinas aqui no Brasil. Mas, passada a crise coronavírus, o valor do Brasil, sobretudo aos olhos dos investidores, virá do comprometimento do nosso governo com as contas fiscais, com a questão do teto dos gastos (assunto para outro especial), com os andamentos das reformas tributária e administrativa, além do direcionamento do Banco Central sobre o futuro da taxa de juros, em um cenário de possível alta inflacionária no curto e médio prazo.

Em poucas palavras, enquanto um segundo sol não chega, acreditamos que temos que dar uma salva de palmas ao maior aprendizado que o Brasil teve em 2020: nossa capacidade de adaptação a situações adversas. Tivemos um ganho enorme em digitalização nas empresas e nas vidas das pessoas, e vamos encerrar 2020 em uma recessão não tão avassaladora como inicialmente imaginávamos. Diante das perspectivas iniciais, isso é até lucro. E, que 2021 seja ainda tempo de aprendermos com os nossos erros. A equipe de macroeconomia deseja a todos boas festas e um ótimo ano novo. Que venham muitas alegrias e bons negócios!

1 - Em economês dummy é uma variável binária (de valor 0 ou 1) e serve para capturar os efeitos de uma categoria (se a pessoa da pesquisa é homem ou mulher, por exemplo) ou de um evento em particular (que não possa ser antecipado nem capturado por outra variável econômica), como por exemplo, uma pandemia (valor 1 para o mês que ocorreu a pandemia, 0 para os demais). Ou seja, a dummy representa um evento muito pouco previsível, para não dizer que é praticamente impossível de se prever.

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Economia para todos é o lema da Fernanda. Com ampla experiência no mercado financeiro, conhecimento técnico apurado e linguagem simples, a autora contribui para a tomada de decisão de clientes e empresas que necessitem desse suporte.

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Economista formada pela USP, com mais de 15 anos de experiência nas área de Economia e Finanças, com foco em análise macroeconômica, resultando em amplo conhecimento do mercado bancário.

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Welber Barral

Estrategista de Comex

Mestre em relações internacionais (USFC), Doutor em direito internacional (USP) e pós-doutor em Direito do comércio internacional (Georgetown University), Barral foi secretário de Comércio Exterior do Brasil de 2007 a 2011. Atualmente é, também, diretor no Departamento de Comércio exterior da FIESP e conselheiro da Câmara de Comércio Americana.

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