Especial

Ao que consta, quando esteve no Brasil na década de 1960, o filósofo Jean-Paul Sartre teve a seguinte impressão: “estranho país surrealista”. O interessante é que essa percepção nos parece acurada 60 anos depois.  

E isso dificulta muito a aposta para meses à frente. O nível de incerteza acima do usual em 2020, diante da pandemia, se estende ao Brasil com jabuticabas e características únicas, como inflação numa recessão, ou ausência de fluxo de investimentos com tamanha necessidade de infraestrutura. Não bastasse, o governo parece estar na corda bamba todo o tempo, e pisa em falso a cada atraso na vacinação.

O outro lado da moeda é que o cenário internacional floresce em meio ao sucesso da vacinação nos EUA e no Reino Unido, e a demanda crescente da China mantém os preços das commodities em patamares recordes.

Nesse jogo de forças, em nosso cenário, os exportadores brasileiros têm uma situação mais vencedora do que o resto da economia. Porém estamos longe de um equilíbrio, pois o vetor positivo vindo do cenário internacional é quase que anulado pelo vetor doméstico, que tem muito risco e traz muita volatilidade aos preços.

Percentual da população vacinada

Cenário internacional: o fim da pandemia traz mesmo recuperação

Os bons ventos seguem para o Tio Sam, mas mesmo assim as autoridades monetárias do Fed continuaram a sinalizar que há pouca chance de uma retirada de todos os estímulos monetários no curto prazo. As perspectivas são de forte crescimento do PIB dos EUA em 2021 e o aumento da inflação.

Contudo esperamos que ao menos uma sinalização clara de redução de seu programa de QE (quantitative easing) ocorra. E, também, não descartamos uma mudança rápida na decisão de juros, gerando resistência na tendência de queda das taxas de câmbio de países emergentes.

Na China, nosso principal parceiro comercial, a recuperação econômica permanece no caminho certo, com o sentimento ajudado pela aceleração do programa de vacinação contra a Covid. Esse movimento tem elevado os preços das commodities, mesmo com o país intervindo e alertando os produtores de metal que eles correm o risco de punição, caso espalhem  notícias falsas ou participem de eventos de especulação para elevar os preços.

A lição é que, de fato, o final da pandemia gera recuperação econômica no mundo realista. Em 2021 e 2022 a normalidade se avizinha.

Economic Outlook - FMI Comparativo das projeções feitas em jan/21 e mar/21

Cenário local: o surrealismo na atividade econômica

Passamos 2020 tentando descobrir em qual formato seria a recuperação (V, W, L, U...). Em 2021, nos perguntamos quão duradouro essa recuperação será.

Por um lado, o Brasil prova certa resiliência. Basta analisar a reação dos indicadores ao primeiro anúncio de  medidas restritivas, em março/ abril de 2020, e compararmos a reação às medidas anunciadas entre fevereiro e abril deste ano, quando a pandemia estava muito pior. No primeiro momento tivemos quase uma paralisação da economia, ao passo que no segundo, os dados tiveram apenas um ajuste. Verdade que nos causa estranheza o quanto foram de fato praticadas das medidas de isolamento social nesta segunda onda, mas salvo conduta, as empresas aprenderam a produzir em meio ao distanciamento social.

Índice de Mobilidade - Google

Indicadores de confiança - FGV

Isso tem gerado surpresas no PIB, que tem surpreendido positivamente o mercado e provocado consequentes revisões para cima das expectativas. Dando a mão à palmatória, reconhecemos e acreditamos ser possível o Brasil crescer cerca de 5% este ano, dando tudo certo até dezembro.

Mas o clima de eleições e desafios conjunturais brasileiros devem nos deixar aquém do mundo. Nossa recuperação deve ser mais lenta e com solavancos, sobretudo na ausência de evolução de reformas. Em 2022, um crescimento de 2% nos parece razoável. Será que nosso crescimento estrutural é mais para 2% que 4%? Achamos que sim.

Cenário local: inflação e juros, um caso de amor

Seria injusto falarmos que o cenário de inflação é surreal? Ainda mais aqui em que essa variável sempre causa temor. Mesmo com uma recessão econômica, a inflação apareceu com tudo.

Tanto pela alta do dólar, que levou o IGP-M a acumular mais de 30% no ano passado, quanto pelo impulso fiscal de mais de 15% do PIB “na veia” em nossa economia, estimulando o consumo em meio à pandemia e contribuindo, e muito, para elevar também os preços ao consumidor.

Expansão fiscal e inflação

O resultado inevitável foi a alta dos juros, mesmo em um cenário de baixo crescimento econômico -- o surreal aconteceu aqui! Mas foi necessário. E, que sorte a nossa estarmos diante de um quadro de juros historicamente baixo, o que deu margem para que as recentes altas não impactassem tanto no crescimento econômico. É país abençoado por Deus que fala? Um caso de amor!

Inflação e juros, um caso de amor

Mas daqui pra frente a historia é outra. A pandemia ainda está em curso, o crescimento é pouco sustentável e, mesmo assim, a inflação parece que não dará fôlego. Temos um agravante chamado crise hídrica e energia elétrica tem um peso significativo dentro dos índices. Ou seja, uma alta no custo da energia será transferida para o consumidor, pressionando ainda mais os indicadores.

Hoje, o mercado tem uma expectativa de 5,4% para o IPCA neste ano, voltando para a meta em 2022. Nós achamos que será mais! E a taxa Selic seguirá os mesmo passos.

Cenário local: e a taxa de câmbio? Falamos em surrealismo?

Em meio a esse abre e fecha da economia, segunda onda de contaminação que se junta na terceira, atraso na vacinação, CPI da Covid e mensagens descompassadas das autoridades brasileiras, nossa imagem institucional vai se manchando. E não tem jeito, sem história boa para contar, não há investimentos maciços.

E é surreal pensar que uma das maiores economias emergentes  do mundo tem baixo fluxo de capital, ou seja, a escolha de se investir no Brasil tem diminuído de tempos em tempos. Diante do excesso de liquidez do mundo, até acho que sobrará um quinhão para o Brasil, trazendo o IDP (investimento externo) de cerca de US$ 30bi em 2020 para algo perto de US$ 45-55 bi em 2021/2022; melhor, mas muito abaixo da série histórica de US$ 70bi.

Investimento estrangeiro no país, em 12 meses

Além disso, a história nos mostrou que em anos de eleições presidenciais há depreciação cambial. E o calendário eleitoral tem se antecipado cada vez mais.

Evolução taxa de câmbio desde início da pandemia

Assim, embora tenhamos crescimento econômico acima do esperado e maior IDP, a estranha conjuntura num ano de eleições deixará a taxa de câmbio em patamar alto.

Veja, por um lado imaginamos que a taxa de câmbio será inferior a de 2020, mas ainda distante do pré-crise Covid, e com alguma depreciação em 2022.  Estranho, não? Esse é o Brasil.

Cenário local: balança comercial, a vencedora

Em meio à pandemia estamos presenciando um surreal desempenho de nossa balança comercial! Nos últimos meses, os superávits atingiram níveis históricos e esse comportamento esteve muito relacionado à forte demanda mundial por produtos básicos, como alimentos e minério de ferro, com preços altos. Olha a inflação aí!

De fato, fomos beneficiados com aumento da demanda externa, as exportações cresceram e foram fundamentais para a evolução da nossa conta corrente. Para se ter uma ideia, nos primeiros cinco meses do ano, o grande destaque das exportações ficou por conta da indústria extrativa, com crescimento de 85,8%, seguido pela venda dos produtos agropecuários, que registraram alta de 43% e, não menos importante, pela alta de 34,6% da indústria de transformação.

Crescimento das exportações dos principais produtos de jan-mai

Vale destacar que só para a China, nossas exportações cresceram 37% neste ano, deixando clara a importante dependência que temos do gigante asiático. Além disso, voltamos a exportar também para os tradicionais parceiros da América do Sul.


Principais destinos das exportações de jan-mai

As importações também tiveram melhor desempenho neste ano, que se manterá a depender da melhora no quadro da pandemia e consequente crescimento da demanda interna. Em suma, o cenário para o comércio exterior é positivo. Mas nossa dependência das commodities minerais, agrícolas e da Ásia podem imprimir algum risco por estarem diretamente ligadas às nossas relações diplomáticas, que não andam lá muito bem. Isso também é surreal.

Conclusão e riscos associados

O Brasil segue com condições macroeconômicas bastante desafiadoras, mesmo com o cenário internacional em rota de recuperação. Além da situação pandêmica brasileira (segunda/terceira ondas, vacinação lenta), os discursos desencontrados e desafetos das autoridades brasileiras nos deixam com uma figura institucional bastante instável.

Por um lado, a atividade econômica nos surpreendeu e deve devolver a recessão de 2020; porém a sustentabilidade de crescimento é uma incógnita. Mesmo porque essa surpresa parece apoiada num ambiente de menor cumprimento das medidas de isolamento do que de resiliência e melhor inventividade.

A balança comercial deve seguir com resultados positivos ao longo do ano, com superavit final superior a US$ 70 bilhões.

Por outro lado, a inflação ainda deve incomodar, gerando necessidade de continuidade de ajuste de taxa de juros. A conjuntura pouco favorável deve diminuir a capacidade de entrada de capital no Brasil e, somada ao nível de incerteza (que aumenta) em períodos de eleições presidenciais, deve segurar a taxa de câmbio em patamares historicamente elevados.

Os maiores riscos estão justamente no cenário politico e em como será a condução da corrida presidencial. Adicionalmente, os desdobramentos da CPI da Covid e a eventual crise hídrica jogam contra o governo e, também, contra a imagem do Brasil, gerando a já tradicional volatilidade no mercado financeiro.

Finalmente, a evolução da vacinação será crucial para a materialização desse cenário, sobretudo do crescimento econômico.

Cenário Banco Ourinvest x Projeções do mercado

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Mestre em relações internacionais (USFC), Doutor em direito internacional (USP) e pós-doutor em Direito do comércio internacional (Georgetown University), Barral foi secretário de Comércio Exterior do Brasil de 2007 a 2011. Atualmente é, também, diretor no Departamento de Comércio exterior da FIESP e conselheiro da Câmara de Comércio Americana.

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