Especial

O Brasil, João E Maria

PUBLICADO EM

25/4/2019

O ano corrente era para ser o ano da retomada do crescimento econômico, era para ser o ano da mudança. Mas o fato é que o mercado acabou brincando de “João e Maria”, conforme a música do mestre Chico Buarque de Hollanda. Nessa canção, que canto todo dia para fazer meu filho dormir, o autor mostra a confusão de tempo comum entre as crianças que ouvem contos de fadas e as trazem para sua realidade: “Agora eu era herói, e meu cavalo só falava inglês...”. Começamos 2019 dizendo: agora éramos um país diferente, um país que superou o passado corrupto e voltamos a crescer decentemente, através da volta da confiança dos agentes.

Porém, os dados mostram outra coisa. Primeiramente, olhando para o indicador de confiança — o principal termômetro da atividade econômica —, notamos que as ações do novo governo não surtiram tanto efeito. Pelo contrário, a confiança segue na zona de pessimismo.

Eu explico isso de duas formas. Pelo lado da confiança do consumidor, realmente acredito que boa parte da população esperava mudança na área de segurança e corrupção. Com as forças do governo quase que 100% voltadas à aprovação da reforma da Previdência, esse grande braço na campanha eleitoral ficou de lado. Não à toa, a aprovação do governo caiu no primeiro trimestre deste ano — o percentual da população que considera o governo ótimo/bom saiu de 49% em janeiro para 35% em abril, aumentando a percepção de regular e ruim/péssimo, segundo dados do Ibope. Pelo lado da confiança dos empresários, os vários tropeços do governo, nos primeiros quatro meses no poder, têm deixado estes menos propensos a já acreditar no país. Esses tropeços podem ser traduzidos em falta de articulação política que incluem desde frases desnecessárias no Twitter, ruídos com os filhos e parlamentares, ao fuzuê entre Jair Bolsonaro e Rodrigo Maia, o presidente da Câmara dos Deputados (item que, na minha opinião, foi a cereja do bolo). Assim, entre ser o rei, o bedel e o juiz, o governo está mais para ser somente o rei, ainda tateando seu novo mandato.

Outro exemplo é o indicador de PIB mensal calculado pelo Banco Central, chamado IBC-BR. Desde o final do ano passado, esse indicador inverteu a trajetória de recuperação. A resposta tem sido uma constante revisão para baixo das expectativas de crescimento econômico para este ano no mercado. O Boletim Focus, divulgado semanalmente pelo BC, mostra que as projeções para PIB de 2019 tem recuado consistentemente desde meados de fevereiro. E em 2 de janeiro, quando achávamos que estávamos com o herói e um cavalo que só fala inglês, o mercado previa 2,53% de PIB para este ano. Agora, a projeção está em 1,71%.

Talvez ainda haja tempo de voltarmos ao conto de fadas que nós mesmos criamos, mas por enquanto os dados não têm corroborado para essa fantasia. Quando teremos de fato que encarar a realidade? Não tenho essa resposta. Só acho importante lembrarmos que, dessa vez, não temos ajuda dos gringos. Afinal, as perspectivas de crescimento mundial tampouco são animadoras. “Agora era fatal que o faz de conta terminasse assim... E agora eu era um louco a perguntar, o que é que a vida vai fazer de mim?”

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Economista formada pela USP, com mais de 15 anos de experiência nas área de Economia e Finanças, com foco em análise macroeconômica, resultando em amplo conhecimento do mercado bancário.

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Estrategista de Comex

Mestre em relações internacionais (USFC), Doutor em direito internacional (USP) e pós-doutor em Direito do comércio internacional (Georgetown University), Barral foi secretário de Comércio Exterior do Brasil de 2007 a 2011. Atualmente é, também, diretor no Departamento de Comércio exterior da FIESP e conselheiro da Câmara de Comércio Americana.

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