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Menos de um mês para eleições americanas: como isso pode afetar o Brasil?

Faltando menos de um mês para as eleições presidenciais nos Estados Unidos, agendadas para 3 de novembro, o mundo todo aguarda o resultado da corrida pela cadeira mais importante do mundo, que é capaz de interferir fortemente na economia e na política globais pelos próximos quatro anos. Mas, afinal, como isso pode afetar o Brasil?

Donald Trump e Joe Biden protagonizaram um dos debates mais caóticos já vistos na história norte-americana. Com troca de acusações e interrupções constantes, os dois candidatos deixaram muito claro que, além de serem concorrentes, não concordam em absolutamente nada. Além disso, o fato do presidente Trump ter contraído o coronavírus faltando menos de 30 dias para as eleições é mais um fator de instabilidade, pois pode atrapalhar sua agenda eleitoral.

É difícil prever como o mundo vai receber a notícia de uma reeleição ou de um novo governo, mas alguns sinais ajudam a entender como o resultado pode impactar as relações globais. O ponto de maior atenção é a questão com a China, a outra superpotência.

Os últimos meses, foram marcados por troca de farpas e uma verdadeira guerra comercial entre os dois maiores países, em termos financeiros, do mundo. Para Fernanda Consorte, economista-chefe e estrategista de Câmbio do Banco Ourinvest, a depender de quem ganhar as eleições, a relação com a China pode melhorar ou não.

“Em caso de uma reeleição, já sabemos que as relações seguem mais protecionistas e serão difíceis. Se o Biden ganhar, há uma chance de melhorar esse cenário”, avalia.

No caso de um novo governo, Fernanda acredita em um destravamento da economia global. “Pode haver uma redução do movimento de aversão a risco e os emergentes podem se dar bem nessa história. Mais crescimento para China e Estados Unidos, que são extremamente demandantes, faz países como o Brasil saírem ganhando”, diz.

A economista avalia que um governo democrata, representado por Biden, seria mais favorável nesse momento sob a ótica dessa questão. “O Trump já se mostrou protecionista, com o projeto de ‘American First’, que muitas vezes dificulta relações de troca com outros países”, pondera.

Welber Barral, estrategista de Comércio Exterior do Banco Ourinvest, adiciona mais duas frentes que podem sofrer impacto, dependendo do resultado das eleições: a relação com o governo de Jair Bolsonaro e a preocupação com a questão ambiental.

“Bolsonaro tem uma proximidade com Trump e isso teria que ser reconstruído com um eventual governo democrata. Além disso, com Biden no comando, a questão ambiental ganharia destaque e poderia dificultar as relações”, avalia Barral.

O estrategista destaca que historicamente os democratas são menos favoráveis ao livre comércio do que os republicanos, mas isso tem variado ao longo da história. Tanto que George W. Bush e Trump foram mais protecionistas que Barack Obama, por exemplo. “É um ponto para prestar atenção. Mas o que mais impressiona no Trump é talvez a falta de previsibilidade em algumas ações no plano internacional que acabam gerando mais instabilidade para os mercados”, avalia.

Como o câmbio pode ser impactado?

O cenário de câmbio nos próximos anos depende fundamentalmente da recuperação de economias centrais. Isso quer dizer que uma recuperação rápida da China, como tem se anunciado, favorece grandes exportadores de commodities, como é o caso do Brasil.

No caso dos Estados Unidos pode haver, a depender da velocidade de recuperação americana, mais medidas de proteção ao mercado interno. Com ações para atração de investimento local é possível que aconteça uma elevação da taxa de juros. “Isso pode criar volatilidade ou culminar em um dólar mais forte em relação às demais moedas”, avalia Barral.

Para Fernanda, a relação é mais direta. “Em um cenário de reeleição, o câmbio tende a ficar mais alto porque a situação com a China seria mais difícil. O oposto é verdadeiro. Se o Biden ganhar, a taxa de câmbio tende a ter mais espaço para cair por uma eventual melhora na relação com a China”, diz.

Relação comercial: o que pode mudar?

Segundo os especialistas, a relação comercial do Brasil com os Estados Unidos é bastante estável e não deve sofrer grande impacto por conta da eleição. Boa parte do comércio entre os países é intercompany, ou seja, entre empresas, e não costuma ser afetado rapidamente.

A relação entre o atual governante e Bolsonaro acaba pesando nessa conta e uma manutenção de poder poderia ser benéfica para o avanço de um acordo de bitributação, de facilitação de comércio, que está se tentando fazer. “São negociações longas que dependem de continuidade”, explica Barral.

Fernanda diz que é perceptível que Trump tem uma boa fluidez com o governo Bolsonaro, embora sempre priorize os Estados Unidos. “Mas o Biden já mostrou que entende a posição dos emergentes como necessária, afinal somos importadores relevantes também. Não acho que seria uma relação deteriorada com um novo presidente, mas com o Trump pode ser que flua mais fácil” diz a economista.

Eleições americanas podem impactar na política brasileira?

Os especialistas acreditam que o resultado da eleição americana pode, inclusive, ter efeitos na eleição presidencial brasileira daqui dois anos. “Afinal de contas, houve uma vinculação direta entre o Trump e o Bolsonaro. A saída de Trump tiraria esse apoio do presidente dos Estados Unidos e enfraqueceria o discurso conservador, que tanto é defendido pelos dois governantes atualmente no poder”, diz Barral.

Fernanda avalia que o movimento de um país importante como os Estados Unidos para uma onda mais democrata, uma veia ligeiramente mais centro-esquerda, acaba impactando o resto do mundo. “Os americanos dão a tônica para o mundo inteiro”, diz.

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Fernanda Consorte

Economista-chefe

Economia para todos é o lema da Fernanda. Com ampla experiência no mercado financeiro, conhecimento técnico apurado e linguagem simples, a autora contribui para a tomada de decisão de clientes e empresas que necessitem desse suporte.

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Cristiane Quartaroli

Economista

Economista formada pela USP, com mais de 15 anos de experiência nas área de Economia e Finanças, com foco em análise macroeconômica, resultando em amplo conhecimento do mercado bancário.

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Welber Barral

Estrategista de Comex

Mestre em relações internacionais (USFC), Doutor em direito internacional (USP) e pós-doutor em Direito do comércio internacional (Georgetown University), Barral foi secretário de Comércio Exterior do Brasil de 2007 a 2011. Atualmente é, também, diretor no Departamento de Comércio exterior da FIESP e conselheiro da Câmara de Comércio Americana.

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