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Inflação: o velho normal

Que a inflação é uma velha conhecida do brasileiro nós já sabemos. Falar de inflação aqui no Brasil é daquelas conversas que surgem nas mais diversas situações, no táxi, no elevador, na academia, enfim... todo mundo tem uma opinião formada, mas nem sempre convicta sobre o assunto. Nós inclusive já tocamos nesse tema inúmeras vezes (veja os relatórios especiais em nosso blog), acertamos, erramos e vamos voltar a falar sobre isso. Afinal, enxergamos que ainda há riscos a serem considerados. Além, é claro, de ser um papo bom pra qualquer hora!

Passado o forte impacto do início da pandemia, os últimos meses do ano passado foram marcados por uma certa euforia dos principiais agentes do mercado financeiro sobre as possibilidades de negócios para este ano – que já está na metade, diga-se de passagem. As novas oportunidades descobertas pelo mundo digital, assim como o até então baixo patamar dos juros, contribuíram para impulsionar alguns setores da economia, como a indústria da construção civil, por exemplo. Contudo a euforia durou pouco. A pandemia voltou a assustar e a inflação a assombrar com custos galopantes batendo às nossas portas novamente.

As razões são muitas, como bem detalhamos em nosso especial de março e o efeito dominó – mais conhecido no “economês” por inércia inflacionária - é desanimador. Veja você, caro leitor, o IGP-M, que é o indicador normalmente utilizado para os reajustes de aluguel, subiu mais de 30% nos últimos 12 meses (ver gráfico1)! Foram muitas as pessoas que se viram obrigadas a se mudarem para conseguir pagar um aluguel mais barato ou tentar uma renegociação em seus contratos.

A economia, assim como a vida, anda em ciclos e algumas vezes os ventos são de bonanças em outras nem tanto. E não é novidade que estamos em um período complicado (aqui abro parênteses para falar que vale para a vida, mas também para a economia). Não bastasse a crise mundial que estamos vivendo há mais de um ano, agora estamos em vias de enfrentar mais uma crise hídrica no Brasil – olha mais inflação aí, minha gente! Não será a primeira vez e possivelmente não será a última também, afinal temos um sério problema com investimentos em infraestrutura e planejamento em nosso país.

Quem se lembra do primeiro apagão que vivemos em 2001 e do racionamento de energia em 2015? Vejam só, 20 anos se passaram e estamos novamente falando sobre crise hídrica. A falta de chuvas desde o início deste ano provocou uma forte queda no nível dos reservatórios que abastecem as hidrelétricas (ver gráfico2) e, com isso, o governo emitiu um alerta de risco hídrico para o País e elevou a bandeira tarifária para “vermelha – patamar 2” – a mais alta e mais cara. Ou seja, pegará em cheio no bolso do consumidor.

Além disso, a meteorologia não prevê alívio próximo e o consumo de energia pode aumentar ainda com a economia voltando a se aquecer com o avanço da vacinação no País. Ou seja, é possível que haja necessidade do governo recorrer às usinas mais poluentes, como as termelétricas, que geram energia muito mais cara, aumentando ainda mais o custo de produção das indústrias. O item energia elétrica tem um peso significativo no IPCA (ver gráfico3), então, qualquer reajuste na conta de luz acaba impactando no bolso do consumidor, não tem jeito.

Já viram, né? Além de afetar toda a cadeia da economia, desde o produtor ao consumidor final, uma crise desse tamanho coloca em xeque a imagem do nosso país, aumentando o risco e prejudicando o ingresso de investimentos, que já não andam lá muito bem. Um problema estrutural recorrente e com forte ligação às questões do meio ambiente deveria ser prioridade de qualquer governo, independentemente, de partido, ideal ou crença. O capítulo pode até ser novo, mas a história é a mesma.

Conclusão

É queridos leitores, voltamos ao velho normal, ou seja, um quadro de baixo crescimento econômico, com juros voltando a subir, inflação em patamar elevado e sem luz no fim do túnel, em vias de entrarmos em ano eleitoral, o que nos traz ainda mais incertezas, e com taxa de câmbio ainda num nível muito alto. Então, por mais que o Banco Central esteja fazendo sua parte (e que bom que está!), talvez não seja suficiente para conter o avanço de alguns preços que, como falamos logo lá em cima, ainda vão sofrer o efeito da inércia e, de novo, vamos ver a renda ser corroída pelo aumento dos preços. Pode até ser normal, mas nada novo!

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Economista formada pela USP, com mais de 15 anos de experiência nas área de Economia e Finanças, com foco em análise macroeconômica, resultando em amplo conhecimento do mercado bancário.

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Welber Barral

Estrategista de Comex

Mestre em relações internacionais (USFC), Doutor em direito internacional (USP) e pós-doutor em Direito do comércio internacional (Georgetown University), Barral foi secretário de Comércio Exterior do Brasil de 2007 a 2011. Atualmente é, também, diretor no Departamento de Comércio exterior da FIESP e conselheiro da Câmara de Comércio Americana.

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