Relatório Especial

Inflação: cenário mais ameno à frente

A inflação é o tema da vez. Um fenômeno mundial que assombra vários países, inclusive aqueles que já não sabiam nem mais qual era o significado dessa palavrinha. Por exemplo, a inflação nos EUA hoje ultrapassou o patamar de 8,0% nos últimos 12 meses, sendo o maior valor desde 1981 - aliás, a média da inflação nos EUA nos últimos 10 anos antes do início da pandemia foi de 1,7%. Podemos falar o mesmo da Europa, que possuía uma inflação abaixo de 2,0% antes da pandemia e hoje esse número chegou aos 8,1% na média anual dos países da Zona do Euro, veja no gráfico1.

O aumento nos preços é um fator mundial que se espalhou rapidamente após a pandemia por conta de motivos como a política fiscal expansionista adotada ao redor do globo, a alta nos preços das commodities combinada à escassez de determinados produtos e, mais recentemente, por contada guerra no Leste Europeu, que acabou por prejudicar ainda mais o abastecimento de certas mercadorias, resultando em, adivinhem? Alta nos preços!

Aqui, no Brasil, não foi diferente. Embora já estejamos mais acostumados com os solavancos nos preços –gato escaldado, que fala? – de fato estávamos com um quadro inflacionário mais controlado desde 2017, com uma inflação média de 3,5% até o início da pandemia, ou seja, abaixo da meta estabelecida pelo Banco Central. Contudo desde meados de 2020, logo após o início da pandemia, começamos a ver uma escalada nos preços domésticos por vários motivos, dentre os quais destacamos:

1.      Política fiscal expansionista: com o advento da pandemia, o governo não teve outra saída a não ser decretar estado de calamidade e despejar um caminhão de dinheiro na economia para minimizar os efeitos do lockdown necessário para combater a Covid-19, num ambiente de taxa de juros historicamente baixa;

2.      Desvalorização do real: impactando diretamente nos custos de produção, já que temos uma economia muito dependente da importação de produtos vindos das China e dos EUA, principalmente;

3.      Elevação nos preços das commodities: o que acabou acarretando em forte elevação nos preços internos dos alimentos. O grupo dos alimentos industrializados tem como base algumas matérias-primas dependentes de commodities agrícolas, como milho, soja e trigo, por exemplo, que são precificadas em dólar e subiram muito ao longo da pandemia. E esses preços acabaram sendo repassados ao consumidor interno.

4.      Retomada da economia pós-pandemia: com o avanço da vacinação e a retomada da normalidade nas economias, foi a vez de vermos pressão nos preços dos serviços, que foi um dos setores mais afetados durante a crise. Masque na retomada acabou passando por uma rodada de aumento nos preços também, afinal, já estava tudo mais caro;

5.      Por fim, a famosa inércia: inércia inflacionária é basicamente um efeito dominó. Acontece quando há um reajuste automático de preços que se baseia na inflação passada e acaba refletindo na inflação presente e assim por diante. É o “efeito de bola de neve”. Vale destacar que a inércia inflacionária é bastante elevada aqui no Brasil justamente por causa do passado que temos com a inflação.

Ou seja, o que países desenvolvidos como os da Europa e EUA estão sentindo agora, nós já estávamos vivendo muito antes. O IPCA começou a ser pressionado por alimentos em meados de 2020, saltando de 0,02% em média mensal no primeiro semestre para 0,72% a partir de julho de 2020. Com isso, estamos com inflação acima da meta desde então. Tanto que nosso Banco Central iniciou o ciclo de aperto monetário em março de 2021 ao passo que os EUA e a Europa estão iniciando esse ciclo agora. Estaríamos alguns passos à frente no quesito inflação? Acreditamos que sim!

               

A pergunta da vez é: até quando a inflação vai subir?

Já teríamos chegado ao pico ou é possível que esse quadro se agrave ainda mais? Primeiramente, vale lembrar que ainda caminhamos num ambiente de forte incerteza, principalmente, vinda do cenário internacional delicado que vivemos, com guerra e reflexos ainda do pós-pandemia. Mas calejados que somos com a inflação e, como falamos anteriormente, o Banco Central iniciou o ciclo de aperto monetário por aqui muito antes do que outros Banco Centrais, de forma que é possível sim que a gente comece a ver uma luz no fim do túnel e que no segundo semestre desse ano o quadro inflacionário comece a ficar mais ameno.

Não à toa o IPCA de maio registrou variação de 0,47%,abaixo da mediana esperada pelo mercado (0,60%) e mostrando um recuo em relação ao indicador de abril (1,06%). Nesse mês, os grupos que mais contribuíram para essa redução foram habitação (por conta da queda nos preços de energia elétrica, após mudança da bandeira tarifária para verde) e alimentação e bebidas, que teve uma desaceleração significativa entre abril e maio. Verdade que a inflação acumulada em 12 meses ainda segue em patamar elevado, de 11,73%, porém olhando à frente vemos sinais de um segundo semestre mais animador no quesito inflação.

 

Então vamos listar abaixo alguns motivos que poderão contribuir para baixar a inflação nos próximos meses:

 

1.    Valorização do real: exatamente como lá no começo da pandemia a alta do dólar provocou um forte avanço na inflação do Brasil, sobretudo nos preços industrializados. A recente valorização do real – vejam, saímos de uma taxa de câmbio média de US$/R$5,4 em 2021 para US$/R$4,9 agora em 2022 – ou seja, uma valorização de mais de 8,0%. E os preços dos produtos industrializados já estão refletindo essa queda do dólar. Como há um repasse entre os preços no atacado representados pelo IGP-M para os preços ao consumidor, representados pelo IPCA, parte desse alívio deve ser sentido na ponta final nos próximos meses, veja no gráfico 2.

2.      Efeito da política monetária: um dos instrumentos utilizados pelo Banco Central (na verdade o mais utilizado) para conter o avanço da inflação é o aumento dos juros. A regrinha de bolso é a seguinte: aumentando os juros, entende-se que o consumo deve reduzir e assim os preços se acomodam a uma nova demanda, que será mais fraca. Estudos indicam que o efeito do aperto monetário sobre os preços acontece em um período de 6 a 9 meses após início do aumento dos juros. Ou seja, é possível que tenhamos chegado a esse período, veja o gráfico 3:

3.      Redução pontual de alguns impostos: o governo anunciou recentemente que pretende adotar medidas para zerar impostos estaduais dos combustíveis, além de reduzir e limitar o teto do ICMS para outros bens. Embora a medida ainda não tenha sido aprovada e existam algumas incertezas sobre esse tema (sobretudo os efeitos em risco país e fiscal); se forem aprovadas, o impacto na inflação desse ano poderá ser positivo.

4.      Queda nos preços administrados: o principal destaque aqui fica por conta dos preços de energia elétrica, que sofreram forte pressão no ano passado por conta da crise hídrica, que já não existe esse ano. Portanto o consumidor já está sentindo no bolso o benefício de viver com a bandeira verde nas contas de energia elétrica nesse ano, conforme dito acima. Além disso, alguns preços administrados devem se beneficiar com a queda do dólar e outros com as possíveis medidas que serão adotadas pelo governo. Seria uma inércia inflacionária as avessas? Esperamos que sim.

Assim, se no primeiro semestre desse ano o IPCA mensal médio foi de 0,9%, é possível que a inflação mensal média no segundo semestre de 2022 fique mais próxima dos 0,4%, justamente pelos motivos que citamos acima. Claro que ainda são valores elevados e teremos uma inflação ainda muito acima da meta no final do ano, mas acreditamos que o pior já passou.

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Economista formada pela USP, com mais de 15 anos de experiência nas área de Economia e Finanças, com foco em análise macroeconômica, resultando em amplo conhecimento do mercado bancário.

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Welber Barral

Estrategista de Comex

Mestre em relações internacionais (USFC), Doutor em direito internacional (USP) e pós-doutor em Direito do comércio internacional (Georgetown University), Barral foi secretário de Comércio Exterior do Brasil de 2007 a 2011. Atualmente é, também, diretor no Departamento de Comércio exterior da FIESP e conselheiro da Câmara de Comércio Americana.

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