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Efeito do coronavírus, há luz no fim do túnel?

Compreendemos que não sabemos os impactos finais do coronavírus e confessamos que, tão pouco, é possível estimar todos os ruídos na nossa economia. Mas se a economia é cíclica, olhar o passado pode ser um ótimo sinalizador do que esperar para os próximos meses.

Olhando a última grande crise financeira (2008), tanto a atividade econômica como a cotação do dólar devem voltar a algo mais “normal” em alguns poucos meses.

A taxa de câmbio no patamar de R$/US$4,7 está majoritariamente impactada pelos riscos da epidemia, contudo há questões domésticas que também pressionam o real. Passado o pânico do coronavírus, é possível que vejamos o câmbio próximo de R$/US$4,3. Mais baixo do que isso? Só arrumando a casa.

Diante do atual “salve-se quem puder” nos mercados financeiros, a incerteza se torna a principal vilã do momento. A volatilidade é grande e a aversão ao risco aumenta a cada dia – a carga recai sobre os países emergentes, é claro!

Mas há mesmo uma enorme preocupação em relação aos impactos do coronavírus nas principais economias do mundo. Já antecipamos aqui que não temos a resposta, contudo este texto tem a missão de apontar alguma via para que nossos amigos leitores possam ao menos enxergar uma luz no fim túnel.

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Sobre a balança comercial e o crescimento econômico: o pior momento já observado em nossa balança foi em 2008, quando o mundo todo sofreu com uma grande crise financeira. Naquela época, perdemos cerca de 50% de nossas exportações e importações em um curto período de 6 meses. Contudo, em pouco mais de três meses, após o pior momento da crise, já havíamos recuperado grande parte dessa perda e no período de 1 ano e 8 meses, o ritmo da nossa balança já havia retornado aos mesmos patamares de antes da crise (ver gráfico 1).

Supondo que agora aconteça algo parecido - ou seja, uma situação extrema – seria factível esperar uma redução importante nas nossas exportações e importações até meados de junho/2020. Porém em setembro deste ano, já teríamos recuperado grande parte disso. Olhando assim, o cenário não é tão ruim, certo? Enxergam a luz?

É claro que isso custaria PIB, em um país já cansado de apanhar. A verdade é que, muito possivelmente, a recuperação econômica somente será sentida (se tanto) no segundo semestre deste ano. E já antecipamos que não é somente pela epidemia, mas também existe culpa doméstica nessa história. Por isso, os atuais 1,99% previstos para crescimento econômico em 2020, devem sim serem revistos ainda mais para baixo.

Mas e o câmbio, como fica?

O impacto no câmbio não seria muito diferente. Entre ago/08 e fev/09, o real se depreciou mais de 40%. Mas, assim como vimos no caso da balança comercial, em 4 meses, nossa moeda já havia devolvido metade dessa alta. E foi voltando ao mesmo patamar de antes da crise ao longo dos meses subsequentes.

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Claro que hoje o mundo é diferente e o patamar do câmbio é outro daquele observado em 2008. Mas o que queremos mostrar aqui é que, assim como na maioria das crises, em um primeiro momento há sempre um “modo pânico”, tanto dos mercados, quanto da população. Mas a história nos mostra que passado o furacão vem a calmaria. Por que nesse caso seria diferente?

Vale destacar que uma grande parte da desvalorização do real está relacionada a alguns eventos externos, dentre os quais destacamos 1. o “corona-vírus” - atualmente o principal vilão; 2. as questões sobre o preço do petróleo na Arábia Saudita e 3. a eterna guerra comercial entre EUA e China. Porém nosso cenário interno de baixo crescimento e de falta de coordenação política em nosso Congresso não está ajudando.

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Note que o real desvalorizou 18% desde o início deste ano, muito mais do que a média das demais moedas emergentes, que variaram 7% em média, no mesmo período (gráfico 3). Se a nossa moeda tivesse apresentado um desempenho parecido com o da média dos demais emergentes, a cotação estaria hoje ao redor de R$/US$4,3, e não os ~R$/US$4,7, que temos observado nos últimos dias (gráfico 4). (Sabemos que somos mais líquidos e, portanto, tendemos a ser mais afetados, contudo também sabemos o que está acontecendo em nossa cozinha versus outros países).

Então podemos fazer uma “conta de padeiro” e acreditar que 40 centavos da alta do dólar aqui no Brasil vieram de fora (efeito coronavírus, principalmente) e que os outros 30 podem estar refletindo problemas internos de nossa economia? Acreditamos nessa hipótese.

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Assim, passado o pânico coronavírus é possível que a gente volte a ver o câmbio próximo de R$/US$4,3 (agora sim há luz?!?!?!). Mas para voltarmos aos patamares do final do ano passado, R$/US$4,00, o governo precisará fazer a lição de casa no que diz respeito à condução das reformas, principalmente, para que o país possa enfrentar, com a saúde fortalecida, os impactos que ainda estão por vir.

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Economista formada pela USP, com mais de 15 anos de experiência nas área de Economia e Finanças, com foco em análise macroeconômica, resultando em amplo conhecimento do mercado bancário.

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Welber Barral

Estrategista de Comex

Mestre em relações internacionais (USFC), Doutor em direito internacional (USP) e pós-doutor em Direito do comércio internacional (Georgetown University), Barral foi secretário de Comércio Exterior do Brasil de 2007 a 2011. Atualmente é, também, diretor no Departamento de Comércio exterior da FIESP e conselheiro da Câmara de Comércio Americana.

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