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Coronavírus e o mercado financeiro: como o Brasil fica nessa história?

Mais de 56 milhões pessoas foram colocadas em quarentena na China, epicentro de contágio do coronavírus. Os números da epidemia já chegaram a 80 mil casos e mais de 2 mil mortes. Além do temor pela questão da saúde, os mercados financeiros ao redor do mundo também reagem ao coronavírus em meio a um ambiente de incertezas.

Algumas outras epidemias globais ajudam a tentar mensurar os impactos que o coronavírus pode causar na economia. Isso sem contar as lastimáveis perdas de vidas. Em outras ocasiões, quando a presença de vírus também perturbou a saúde global, os prejuízos foram anotados.

Dois casos ajudam a dar dimensão do problema das epidemias globais para o mercado financeiro. O primeiro deles, em 2003, foi o surto de Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave), que também teve epicentro na China e em Hong Kong. Na ocasião, algumas consultorias financeiras asiáticas chegaram a dizer que a Sars reduziu o crescimento da China em três pontos percentuais no trimestre mais afetado, embora a economia tenha se recuperado logo. Vale lembrar que na ocasião a China tinha bem menos relevância na economia global e respondia por cerca de 4% do PIB mundial. Esse número quadruplicou e atualmente está na casa dos 16%.

O segundo caso de epidemia que pode servir de base para mensurar os efeitos econômicos é a gripe suína, ou H1N1, que reportou os primeiros casos em 2009, no México. Na época, o mercado financeiro refletiu o medo de uma infestação global e operou de forma instável durante um período de tempo. Mas junto com a epidemia, o mundo passava pela crise financeira do subprime, com os norte-americanos em sua maior recessão desde a década de 1930. Por isso, é difícil mensurar os efeitos isolados da H1N1. O que pode ser afirmado é que o vírus contribuiu para o clima instável e piorou o desempenho econômico global.

Como a epidemia pode afetar o Brasil?

O fato é que as epidemias globais assustam as autoridades de saúde pública e impactam os mercados financeiros. Afinal, questões como redução de consumo, recuo de importação e exportação, e aumento de gastos com saúde são pontos importantes para as economias. Isso sem contar a redução de atividade pontual de empresas, como as aéreas que suspenderam voos para locais de alto risco de contágio.

Com a confirmação de casos da doença no Brasil, o país já entra na lista de territórios contaminados e já começa a ver os efeitos da doença no setor financeiro. No dia da divulgação do primeiro paciente com a doença, a bolsa de valores desabou 7% e o dólar subiu a R$ 4,44. Foi a maior queda do Ibovespa desde maio de 2017, quando caiu 8,8%, após a divulgação de um áudio com diálogo comprometedor envolvendo o então presidente Michel Temer.

Apesar de ser difícil prever o cenário daqui para a frente e a evolução do coronavírus, é certo que algum impacto será percebido no cenário econômico. Nas próximas semanas, o time de Paulo Guedes (Economia) deve divulgar um relatório com a nova projeção para o PIB de 2020 (hoje em 2,4%). Em entrevista recente à GloboNews, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, disse que busca mensurar como o vírus afetará a atividade no Brasil.

“A gente precisa esperar para perceber o efeito no Brasil. Certamente algum efeito terá", disse o presidente, acrescentando que os impactos são de toda forma baixos para a atividade, mas dúbios para a inflação, que poderia subir em caso de forte aversão a risco.

Em nota na ata mais recente do Copom (Comitê de Política Monetária), o BC já havia dito que “um eventual prolongamento ou intensificação do surto, implicaria em uma desaceleração adicional do cenário global, com impacto sobre os preços das commodities e ativos financeiros”.

Como a China pode afetar o comércio exterior do Brasil?

Segundo Cristiane Quartaroli, economista e estrategista de câmbio do Banco Ourinvest, “ainda é muito cedo para mensurar qualquer impacto da epidemia de coronavírus na economia brasileira. Mas é provável que haverá alguma mudança de ordem econômica”.

Precisamos entender que a relevância da China nos negócios brasileiros é grande. Atualmente, cerca de 30% das exportações brasileiras vão para a China, de acordo com dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços. Os números de importação também são relevantes e a nação asiática é responsável por mais de 30% dos envios totais do nosso país.

Quando falamos de exportação, temos soja, minério de ferro e carne entre os principais produtos da lista, em termos de volume. No âmbito das importações, a gama de itens é bem variada e vai desde eletrônicos até medicamentos. “O que podemos dizer num primeiro momento é que uma redução da produção e do consumo chinês poderá afetar nossa corrente de comércio, que já vem desacelerando desde meados de 2018. Em contrapartida, podemos esperar um incremento nas exportações em um prazo mais longo, quando toda essa demanda reprimida for retomada”, diz Cristiane.

O coronavírus é mais um fator de risco que veio para aumentar a volatilidade e as incertezas nos mercados locais. “Estamos sem uma boa história para contar internamente. Vivemos um momento em que o crescimento econômico ainda está lento e gradual e sem sinais de um desempenho mais consistente. Com isso, os mercados ficam dependentes dos fatores externos e isso nos torna mais vulneráveis”, afirma. Algumas instituições financeiras já começaram a revisar as projeções de crescimento para baixo por conta disso. Mas ainda é cedo para dizer se não será somente um efeito pontual e passageiro.

Uma boa forma de conter o avanço da epidemia, além de cuidar da questão da saúde pública, é blindar o país com notícias positivas. Mas ao que tudo indica, com as reformas caminhando a passos lentos e a política derrapando entre declarações polêmicas, teremos que buscar outros antídotos contra o coronavírus.

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Fernanda Consorte

Economista-chefe

Economia para todos é o lema da Fernanda. Com ampla experiência no mercado financeiro, conhecimento técnico apurado e linguagem simples, a autora contribui para a tomada de decisão de clientes e empresas que necessitem desse suporte.

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Cristiane Quartaroli

Economista

Economista formada pela USP, com mais de 15 anos de experiência nas área de Economia e Finanças, com foco em análise macroeconômica, resultando em amplo conhecimento do mercado bancário.

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Welber Barral

Estrategista de Comex

Mestre em relações internacionais (USFC), Doutor em direito internacional (USP) e pós-doutor em Direito do comércio internacional (Georgetown University), Barral foi secretário de Comércio Exterior do Brasil de 2007 a 2011. Atualmente é, também, diretor no Departamento de Comércio exterior da FIESP e conselheiro da Câmara de Comércio Americana.

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