Especial

“Confiança quebrada, nunca recuperada” - será?

No dicionário confiança é “crença de que algo não falhará, de que é bem-feito ou forte o suficiente para cumprir sua função”. Tem também quem diga que confiança é algo que se conquista e, uma vez perdida, dificilmente voltará a ser como antes. Quem concorda? Nós aqui, que somos descrentes das verdades absolutas, preferimos dizer que nem lá, nem cá. A confiança é importante sim – e muito, faz falta quando está em queda, mas pode se recuperar com muito esforço, dedicação e um pouquinho de sorte, que é sempre muito bem-vinda. Contudo se não nos falta sorte (escolhemos acreditar que ainda somos um país abençoado por Deus e bonito por natureza), tem nos faltado confiança e é sobre ela que vamos falar hoje.

A confiança e as expectativas dos empresários e da população são termômetros importantes da economia de um país, porque o nível de otimismo ou de pessimismo aponta tendências de consumo e de investimentos que são dois dos principais motores da atividade econômica e do emprego. Quando estão otimistas, os empresários tendem a fazer investimentos e os consumidores ficam mais dispostos a comprar. Os aumentos dos investimentos e do consumo alimentam o crescimento econômico e a criação de empregos. Em tempos de pessimismo, os investimentos e o consumo diminuem, desacelerando a atividade econômica – passamos por isso recentemente e sabemos muito bem como é!

Vimos os principais indicadores de confiança do Brasil despencarem no ano passado por conta da pandemia. No início foi o susto e depois foram as restrições de circulação e a paralisação de vários setores da economia. Para se ter uma ideia, o índice de confiança do empresariado saiu do satisfatório 100 pontos em fevereiro de 2020, para o vexatório 50,3 em abril de 2020. E não foi só a confiança do empresário que caiu, o mesmo aconteceu com a confiança também do consumidor, veja no gráfico 1. Ou seja, estávamos vivendo um momento muito incerto no mundo e não tinha como ser diferente. O sistema de saúde estava em crise (e vimos que podia piorar) e a economia colapsou (mas parece que pode se recuperar – olha a confiança aí!).

2021 chegou e, enquanto outros países haviam iniciado suas campanhas de vacinação já em 2020, o Brasil ainda patinava nessa questão e entrou tardiamente para o quadro dos países com redução no número de casos de COVID-19. Pior, a doença se alastrou ainda mais e começamos a enfrentar o mais grave momento da crise sanitária que assolou o mundo. Resultado: novas restrições de circulação, lojas, fábricas e escolas fechadas e nova queda nos indicadores de confiança. Mas, dessa vez, o impacto foi menos intenso do que observado no ano passado. Ou seja, muito embora o estrago da piora da pandemia sobre a atividade econômica tenha ressurgido, há uma resiliência em nossa economia por aí, não acham? Já falamos sobre isso em outros textos e voltamos a salientar a enorme capacidade que a economia brasileira tem de se adaptar. Ponto positivo para o Brasil!

Movimento parecido ocorreu com o indicador de incerteza da economia, que ano passado alcançou o maior patamar da série histórica de 20 anos (ou seja, alcançou o maior nível de incerteza econômica por parte dos agentes econômicos), nestes últimos meses nem se abalou (ver gráfico 2). O brasileiro se acostumou com a crise ou a economia está mais resiliste. Talvez um pouco das duas coisas? Mas o fato é que começamos a ver um pequeno sinal de que a roda da nossa economia pode estar voltando a girar, ainda que lentamente.

O mercado financeiro acaba mostrando alguma relação com a confiança dos agentes, dado que isso é reflexo de crescimento econômico. Contudo esse movimento é mais claro na Bolsa de Valores do que nas taxas de câmbio. De fato, o Índice Bovespa despencou no início da pandemia, assim como a taxa de câmbio aumentou muito – refletindo é claro o nível de incerteza que enfrentávamos. Nessa segunda fase da crise (ou segunda onda), a Bolsa de Valores parece apontar justamente a resiliência da economia brasileira e segue em patamares altos (~120 mil pontos) mesmo com todo cenário que estamos vivendo. Já a taxa de câmbio não tem jeito, ela imprime o risco país, e portanto os quiproquós de Brasília, além das incertezas fiscais , não deixam esse indicador ceder (veja no gráfico 3).

De qualquer forma, no final do dia, entendemos que haverá muita emoção e volatilidade pela frente nos indicadores de mercado, mesmo com alguma resiliência mostrada pela confiança dos agentes. A recente queda dos indicadores de confiança, ainda que menos intensa que aquela observada no ano passado, nos faz acreditar que veremos resultados de PIB bastante fracos nos 1T21 e 2T21. E de fato as projeções do mercado para o PIB vêm caindo desde fevereiro desse ano (ver gráfico 4). Nós acreditamos que a economia pode ainda piorar nos próximos meses para só então voltar a respirar – e com ajuda de aparelhos – no segundo semestre desse ano, quando uma parcela importante da população terá sido vacinada. Assim esperamos e torcemos!

Conclusão

Então, caros leitores, como falamos lá no começo, a confiança é importante sim, e no caso da nossa economia acreditamos que ela poderá ser recuperada, seja porque a pandemia deve dar uma trégua com a vacinação em massa da população, seja pela capacidade de adaptação dos nossos agentes. Porém a taxa de câmbio ainda deve refletir problemas mais estruturais ou aqueles que vão além da economia real de curto prazo. Não à toa seguimos com descasamento de bolsa de valores e taxa de câmbio.

No items found.

Siga o Banco Ourinvest

Logo LinkedinLogo FacebookLogo InstagramLogo TwitterLogo YoutubeLogo Spotify

Conteúdos relacionados

21/10/21

Especial

Mercado de trabalho: pode chorar, pode chorar...

Parece hit de carnaval ou grito em estádio de futebol, mas é sobre a taxa de desemprego mesmo que estamos falando, que junto com...

Leia mais

21/9/21

Especial

E se? Cenários para a taxa de câmbio

Em períodos de crise, então, as incertezas e adversidades são tantas, que o trajeto fica ainda mais tortuoso. Quando se trata...

Leia mais

Categorias

Nossa equipe de economistas

Fernanda Consorte

Economista-chefe

Economia para todos é o lema da Fernanda. Com ampla experiência no mercado financeiro, conhecimento técnico apurado e linguagem simples, a autora contribui para a tomada de decisão de clientes e empresas que necessitem desse suporte.

Veja mais

Cristiane Quartaroli

Economista

Economista formada pela USP, com mais de 15 anos de experiência nas área de Economia e Finanças, com foco em análise macroeconômica, resultando em amplo conhecimento do mercado bancário.

Veja mais

Welber Barral

Estrategista de Comex

Mestre em relações internacionais (USFC), Doutor em direito internacional (USP) e pós-doutor em Direito do comércio internacional (Georgetown University), Barral foi secretário de Comércio Exterior do Brasil de 2007 a 2011. Atualmente é, também, diretor no Departamento de Comércio exterior da FIESP e conselheiro da Câmara de Comércio Americana.

Veja mais