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Cenário Econômico 2022: "A solução é alugar o Brasil."

Qual a solução para a conjuntura brasileira? Aluga-se?

2021 talvez tenha sido melhor que 2020. Mas, nem de perto foi o alívio que imaginávamos, a notar pelos níveis dos preços de ativos brasileiros na data deste relatório. E já cansados de trazer más notícias a nossos leitores pensamos que talvez o lendário Raul Seixas, no início da década de 80, estava certo que a solução é alugar o Brasil.  

A despeito do humor (e genialidade) da música, a letra soa como um alerta para a má administração do Brasil se comparado com um imóvel. Estamos imóveis?

Por um lado, sem dúvida, nas últimas semanas vimos a taxa de câmbio beliscar US$/R$5,70 pela má administração dos nossos governantes (veja gráfico 1). Por outro lado, 2022 entra com uma sensação de esperança, considerando que temos eleições presidenciais e tudo pode mudar com aprendizados recentes (será?), ainda mais que ao que tudo indica a pandemia ficou para trás (será?).

O problema é que ainda temos que navegar no ano de eleições, e esses costumam ser difíceis e chatos. E não falamos isso só pela briga familiar já contratada nos grupos de whatsapp, tem muita coisa para acontecer que deve trazer ainda risco e, consequentemente, muita volatilidade aos preços dos ativos (veja gráfico 2). Isso sem falar nos riscos para o cenário global como, por exemplo, um possível agravamento da relação EUA-China e o impacto disso para o Brasil.  Explicaremos melhor tudo isso na sequência:

Inflação alta e crescimento econômico... Dá lugar pros gringos entrarem.

Parece que vencemos a pandemia, mas as sequelas ainda continuam sendo sentidas. O resultado tem sido a manutenção das pressões globais sobre custos. O desconforto com as pressões inflacionárias, piora pela diminuição de expectativas de crescimento da economia global, o que resulta em desafios importantes para a condução da política monetária.

Não vemos estagflação – afinal, o crescimento da economia global deve atingir 4,3% em 2022 após 5,9% em 2021, segundo o FMI. Mas mesmo com um crescimento mais moderado o “boom” da reabertura econômica ainda não parece ter trazido alívio para a inflação, aumentando a incerteza quanto aos rumos da economia global.

Nos EUA, mesmo com o desafio de fazer com que toda população norte-americana tome a vacina contra a Covid-19, a economia tem dado sinais positivos, tanto que as autoridades monetárias do Fed já iniciaram a  retirada de  estímulos monetários no curto prazo: ritmo de US$15 bilhões por mês, com o programa se encerrando em junho de 2022. O Fed ainda reforça que os critérios para subir juros não foram cumpridos, e que o fim do tapering não implica alta imediata.

Mas não descartamos uma mudança rápida na decisão de juros, gerando resistência na tendência de queda das taxas de câmbio de países emergentes.

A China, nosso principal parceiro comercial, balançou com a polêmica envolvendo a empresa Evergrande, que deve custar 0,1% do PIB chinês nos próximos trimestres. Porém, corrigido esse problema, o crescimento ainda é importante. Assim, os preços de commodities não devem ter uma tendência de queda contínua  (veja gráfico 3).

Além disso, há um risco não calculado que é um possível agravamento da relação EUA-China e o tanto que isso impactaria as economias emergentes. Sem deixar de lado todas as questões socioambientais que devem estar no foco das grandes nações em 2022.

Mas, comparativamente, os gringos ainda teriam condições de alugar o Brasil.

“Tá tudo pronto aqui é só vir pegar”. A solução é alugar o Brasil.

Enquanto fomos monotemáticos em pandemia em quase dois anos, em 2022 seremos monotemáticos em eleições. Tudo será ao redor da decisão das urnas em outubro.

É impossível adivinhar o que vai acontecer, quem vai ganhar, mas sabemos que eleições presidenciais por si só, historicamente, já geram muita incerteza e a popularidade do presidente atual já não está lá tão boa (veja gráfico 4). Incerteza é chave para decisão de novas contratações, de investimentos e requerimento de crédito; e o Congresso foca suas energias nas articulações e votos (leia-se sem espaço para reformas). Portanto, são anos com crescimento mais modesto.  

Além disso, o governo atual quer ser reeleito. Considerando seu perfil e que hoje ele enfrenta uma rejeição de 63%, é bastante factível esperar medidas populistas, gastos acima da orçamento (nós não vamos pagar nada!) e sem contrapartidas, num ambiente fiscal fragilizado (veja gráfico 5). Essa combinação joga ainda mais para baixo as expectativas de crescimento econômico, e piora e muito o retrato do Brasil.

Com isso, o PIB de 2022 deve configurar que 2021 foi um voo de galinha. E o PIB perto de 1% nos parece realista. Mas tudo bem, porque “O Atlântico tem vista pro mar, a Amazônia é o jardim do quintal”.

Inflação, dólar dele paga o nosso mingau.

O cenário de inflação poderia ser explicado em três palavras: inércia, câmbio e fiscal. E em todas elas temos um vetor de alta de inflação. Sim, temos o juros, sim temos uma economia fraca, mas para combater esses três primeiros, tem que ter força.

Inércia: as novas surpresas com preços de energia e combustíveis, extensão dos problemas de oferta e possíveis elevações em planos de saúde, vão dar sugestão de maior repasses de preços em 2022.

A manutenção de um patamar alto da taxa de câmbio, que mantém o IGP-M acima de 20%,não deve dar folga à inflação aos consumidores. Lembrem-se de que 30% da cesta de consumo dos brasileiros pode ser importada e, e portanto está atrelada ao câmbio.

E política fiscal expansionista, meus colegas, é impulso de consumo imediato. Quanto mais medidas populistas, que já estão à vista e são palpáveis, mais pressão nos preços. Inflação em 2022 pode bater fácil 5,0% (veja gráfico 6).

Só não será pior, porque o Banco Central tem agido prontamente, e já será um vetor de ajustes em expectativas. A taxa Selic deve voltar para 2 dígitos já no inicio do ano, e aqui já já falamos em 12% ao ano (veja gráfico 7).

Taxa de câmbio: negócio bom assim ninguém nunca viu.

Realmente acho que a taxa de câmbio hoje sintetiza a mensagem da música do Raul. “A solução é alugar o Brasil”. Não tem jeito, sem história boa para contar, não há investimentos maciços.

Mesmo ainda mantendo o lugar de uma das maiores economias emergentes  do mundo, o Brasil tem baixo fluxo de capital, ou seja, a escolha de se investir no Brasil diminuiu há tempos.  

A expectativa é que o IDP (Investimento Direto no País) fique perto de US$ 55-60 bilhões em 2022; melhor, mas abaixo da série histórica de US$ 70bi (veja gráfico 8).

Além disso, a história nos mostrou que em anos de eleições presidenciais há depreciação cambial. Afinal, maior será a incerteza.

Vejam, neste ano, que crescemos sob de descompassos do governo, ainda tivemos um ótimo número de vacinados contra a Covid-19, a taxa de câmbio do Brasil desvalorizou 7,5%, e os emergentes na média 7,0% (veja gráfico 9). E com um nível de taxa ainda muito elevado.

Então, ano que vem o Brasil segue barato, com taxa de câmbio alta (ao menos até as eleições) e sobretudo muito volátil. Não achamos que baixa de US$/R$ 5,00. Deve seguir a depender do cenário eleitoral, perto dos US$/R$5,50.

Balança comercial, nem tudo é free.

Embora nossa balança tenha sido um dos setores que menos sofreu com a crise no ano passado, continuamos muito dependentes da China (veja gráfico 10), sobretudo no que diz respeito ao destino das exportações.

Neste ano, com a retomada das economias pós-vacinação, tivemos um crescimento em nossas exportações de 36,0% até outubro. Já as importações cresceram 38,3%, o que resultou em um salto enorme em nossa corrente de comércio. Mas um crescimento menor da China no próximo ano pode ser ruim para as nossas exportações.

Além disso, vale lembrar que a alta do dólar contribuiu, de certa forma, para o impulso das exportações. Mas também teve efeito não tão positivo do lado das importações,  afinal, embora as importações tenham crescido recentemente, os preços estão mais elevados. Ou seja, será que vem mais inflação para o mercado local nos próximos meses?

Por fim, ainda não houve total recuperação das importações de insumos e de bens de capital, então, os desafios e riscos são enormes para 2022. Sobretudo os riscos empresariais, como: cyber segurança; mudança no ambiente regulatório; sustentabilidade social e ambiental e interrupção da cadeia de suprimentos. Nem tudo é free!

Cenário Banco Ourinvest x Projeções do Mercado

Conclusão e riscos associados

Em mais um ano, o Brasil segue com condições macroeconômicas bastante desafiadoras e, dessa vez, o cenário internacional está com questões e riscos em aberto. As condições financeiras mais restritivas podem atrapalhar a recuperação nos mercados emergentes. Mesmo com um cenário pandêmico sob controle, ainda destacamos os discursos errados e desafetos das autoridades brasileiras, ainda mais prestes a entrarmos em um cenário eleitoral.

O ambiente fiscal está bastante fragilizado e os mercados com constantes temores por novas medidas populistas em respostas à baixa popularidade do presidente. Por consequência, a confiança começa a balançar e já se espera baixo crescimento econômico em 2022.  

E quanto mais medidas populistas, maior a pressão nos preços. Só não será pior porque o Banco Central tem agido prontamente, e será um vetor de ajustes de expectativas. A taxa Selic deve voltar para 2 dígitos já no início do ano, esperamos 12% no final de 2022.

A conjuntura pouco favorável deve diminuir ainda mais a capacidade de entrada de capital no Brasil e, somada ao nível de incerteza (que aumenta) em períodos de eleições presidenciais, deve segurar a taxa de câmbio em patamares historicamente elevados.

A balança comercial deve seguir com resultados positivos ao longo do ano, com superávit final superior a US$ 70 bilhões.

Os maiores riscos estão justamente no cenário politico e em como será a condução da corrida presidencial. Numa possibilidade de mudança no ambiente regulatório, em questões de sustentabilidade social e ambiental, e até na interrupção da cadeia de suprimentos. E lá fora, importante ficarmos atentos a novas variantes da Covid-19 que se mostram resistentes às vacinas, assim como à agitação social pesando na recuperação global.

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Fernanda Consorte

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Economia para todos é o lema da Fernanda. Com ampla experiência no mercado financeiro, conhecimento técnico apurado e linguagem simples, a autora contribui para a tomada de decisão de clientes e empresas que necessitem desse suporte.

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Cristiane Quartaroli

Economista

Economista formada pela USP, com mais de 15 anos de experiência nas área de Economia e Finanças, com foco em análise macroeconômica, resultando em amplo conhecimento do mercado bancário.

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Welber Barral

Estrategista de Comex

Mestre em relações internacionais (USFC), Doutor em direito internacional (USP) e pós-doutor em Direito do comércio internacional (Georgetown University), Barral foi secretário de Comércio Exterior do Brasil de 2007 a 2011. Atualmente é, também, diretor no Departamento de Comércio exterior da FIESP e conselheiro da Câmara de Comércio Americana.

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