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Balança comercial: superávit é sustentável?

No primeiro semestre deste ano, o superávit da balança comercial somou US$ 36,7 bilhões, com crescimento de 35% das exportações e de 26,5% das importações. Ou seja, o saldo entre o que enviamos para fora do Brasil e o que compramos do exterior ficou positivo.

Apenas em junho, o saldo foi de US$ 10,3 bilhões, alta de 57,6% na comparação anual. Segundo o Ministério da Economia, esse foi o recorde mensal desde o início da série histórica, em 1989.

À primeira vista a notícia parece ser extremamente positiva, mas há algumas entrelinhas que devem ser avaliadas. Segundo Welber Barral, estrategista de Comércio Exterior do Banco Ourinvest, o aumento das exportações revela a recuperação econômica do Brasil, mas também reflete a elevação dos preços das commodities, produtos com cotação internacional, como alimentos, petróleo e minério de ferro – dos quais o Brasil é grande exportador.

“O Brasil continua dependente das commodities e surfa um momento de alta dos preços que aumenta a receita. Por exemplo, o preço do minério de ferro subiu mais de 100% nos últimos dois anos. Também há alta expressiva de produtos como soja e milho”, explica.

Apenas no primeiro quadrimestre deste ano, os preços do minério embarcado ao exterior pelo Brasil avançaram 77,6% enquanto a soja subiu 18%, conforme dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), refletindo baixos estoques na cadeia e menor oferta sazonal, além da demanda externa.

Essa alta dos preços, apesar de ser boa para abalança comercial brasileira neste momento, pode não ser sustentável no longo prazo.

Barral explica que a alta das commodities advém de algumas questões pontuais: a primeira delas é que países como China e Estados Unidos anunciaram programas muito ambiciosos de recuperação econômica por conta da pandemia.

“Foram bilhões de investimentos em infraestrutura e isso fez aumentar a demanda por minério de ferro e seus produtos correspondentes. Por isso, há um aumento expressivo nos valores de produtos siderúrgicos. Contudo isso não deve ser visto por muitos anos”, diz Barral.

Além disso, as commodities agrícolas também estão em um bom momento. Os países asiáticos seguem com uma alta demanda por nossos produtos.

“Os países asiáticos são os maiores destinos das exportações brasileiras e a pandemia não impactou tanto o continente. Por isso, a demanda continua”, afirma Barral.

Para se ter uma ideia, o Brasil é o maior exportador e produtor global de soja e em 2021 deverá somar um recorde de 84,5 milhões de toneladas, alta de 1,8% na comparação anual. Enquanto isso, os preços estão também crescentes, tendo atingido máximas de cerca de oito anos na bolsa de Chicago recentemente, refletindo um aperto na oferta e dados de plantio nos Estados Unidos.

A Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais) estima que as receitas geradas com a exportação de soja poderão atingir US$ 37,2 bilhões este ano, versus US$ 28,5 bilhões em 2020, com os preços médios saltando de cerca de US$ 100 dólares para US$ 440 por tonelada.

“A demanda asiática é real e crescente, mas os preços da soja podem não se sustentar em patamares tão altos por tanto tempo”, avalia o estrategista do Banco Ourinvest.

Outra frente de destaque das exportações é ade proteínas. A China teve o problema da crise suína e precisou sacrificar milhões de animais. Com isso, precisou importar carne de porco e o Brasil ganhou destaque nesse cenário.

“Aos poucos a China está se recuperando e essa demanda tende a cair e impactar em outras cadeias, como as de milho e ração”, avalia Barral.

O cenário de exportação segue pautado pelas commodities, uma vez que a remessa de manufaturados apresentou redução em 2019 e 2020 e ainda não apresenta sinais de recuperação. “Esses produtos de maior valor agregado são fundamentais para a composição da balança comercial. No entanto, a América Latina é nosso principal destino e ainda amarga os efeitos da pandemia”, explica o executivo.

Barral diz que é fundamental apostar na diversificação de produtos e destinos para garantir um equilíbrio na balança comercial. “A gente não pode ter ilusão de que o superávit é estrutural. O fato é que se cai o valor das commodities, o que costuma acontecer em ciclos de três anos, nosso saldo despenca também”, diz.

Importações e a recuperação na prática

No primeiro semestre deste ano, as importações cresceram 26,5% na comparação anual. “É um número expressivo, mas não tanto, porque grande parte do nosso portfólio costuma ser de insumos ou bens de capital. Ou seja, por conta do câmbio alto não teve o crescimento esperado”, diz Barral.

O executivo explica que as importações revelam dois aspectos: a modernização do parque industrial e a recuperação do setor de serviços.

“Nenhuma das frentes está consolidada. Muitas empresas estão adiando investimentos, seja por temor ou por dificuldades de financiamento. Além disso, o setor de serviços tem outro compasso de recuperação e ainda não decolou. Talvez a gente assista essa recuperação mais efetiva em 2022”, diz Barral.

Expectativas

O Ministério da Economia tem uma estimativa de superávit de US$ 105,3 bilhões para este ano. Se confirmado esse valor, o resultado será 106% maior que o obtido em 2020 e recorde para a série histórica.

A estimativa está bastante superior a do mercado financeiro. Segundo o boletim Focus, pesquisa semanal com instituições financeiras divulgada toda semana pelo Banco Central (BC), a previsão para o superávit da balança comercial está em US$ 68,8 bilhões. O número, no entanto, pode ser revisto para cima nas próximas semanas.

Até agora, o recorde de superávit na balança comercial havia sido registrado em 2017, quando o País exportou US$ 56,04 bilhões a mais do que importou. No ano passado, marcado pela interrupção temporária de fluxos comerciais por causa da pandemia de Covid-19, o superávit somou US$ 50,3 bilhões.

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Cristiane Quartaroli

Economista

Economista formada pela USP, com mais de 15 anos de experiência nas área de Economia e Finanças, com foco em análise macroeconômica, resultando em amplo conhecimento do mercado bancário.

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Welber Barral

Estrategista de Comex

Mestre em relações internacionais (USFC), Doutor em direito internacional (USP) e pós-doutor em Direito do comércio internacional (Georgetown University), Barral foi secretário de Comércio Exterior do Brasil de 2007 a 2011. Atualmente é, também, diretor no Departamento de Comércio exterior da FIESP e conselheiro da Câmara de Comércio Americana.

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