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Até onde vai o dólar

PUBLICADO EM

16/3/2020

A moeda americana começou o ano de 2020 a R$ 4,02, mas ao longo do primeiro trimestre já atingiu patamares acima dos R$ 5. Houve até interrupções das negociações na Bolsa de Valores de São Paulo por meio de um mecanismo automático chamado de "circuit breaker", que é acionado quando há queda de mais de 10%. Mas, afinal, até onde chegará a cotação do dólar e por que a moeda está oscilando tanto?

Alguns fatores precisam ser pontuados para analisar o aumento da cotação da moeda americana, que já é comercializada por mais de R$ 5,25 em algumas casas de câmbio. Segundo Cristiane Quartaroli, economista e estrategista de câmbio do Banco Ourinvest, uma junção de motivos tem feito nossa moeda desvalorizar e o câmbio oscilar tanto. O surto de coronavírus, a queda do preço do petróleo, a situação política interna e o fortalecimento da economia americana ajudam a explicar a escalada do dólar. “Não tem um motivo principal. Precisamos compreender o cenário como um todo”, diz.

O primeiro passo é olhar para o cenário interno. Nos últimos meses, o Brasil assistiu de camarote a desvalorização do Real. Nossa moeda já caiu mais de 15% em relação ao dólar, desde o início deste ano. Apesar do movimento ser globalizado, outros países acumulam índices menores na mesma comparação. A perda em relação à moeda dos EUA foi de 4,98% na moeda do México (peso mexicano), 9,40% na da África do Sul (rand), e 12,75% na da Turquia (lira turca), por exemplo.

Apesar dos últimos resultados do PIB (Produto Interno Bruto) terem vindo em linha com as expectativas do mercado, ainda há um baixo crescimento do volume de investimentos que preocupa os economistas de forma geral. “Estamos com uma economia fragilizada e uma indústria com baixo crescimento. Isso não contribui para o fortalecimento da moeda”, avalia Cristiane.

Os embates da política interna

Além disso, as questões políticas que envolvem o embate entre o presidente e o Congresso Nacional e as declarações polêmicas, acabam deixando o mercado em alerta, reduzindo a confiança dos investidores -- o que causa uma retirada de moeda e deixa o fluxo de dólar negativo.

O compasso de espera ainda segue como diretriz das mudanças econômicas. “As reformas tributária e administrativa ainda não mostraram avanços e já estamos no fim do primeiro trimestre. A expectativa de andamento nos trâmites e de mudanças no cenário econômico parecem estar distantes”, afirma a economista.

E não há prazo para que a situação mude. Em entrevista recente, o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que é normal que o câmbio flutue. “Se eu fizer muita besteira, ele pode ir para o nível de R$ 5. Se eu fizer muita coisa certa, pode descer. Com as reformas serão retomados os investimentos e o dólar acalma", afirmou

Os juros mais baixos do Brasil

Outro ponto a ser observado internamente é a taxa de juros brasileira. A redução sucessiva da Selic ajuda a jogar para cima as cotações do dólar. A taxa está atualmente em 4,25% ao ano e tornou alguns rendimentos menos atraentes para o investidor estrangeiro. Isso prejudica o desempenho do real.

É provável que esse cenário não mude tão cedo. Em comunicado recente, o Banco Central disse que pode seguir uma recomendação global de redução de taxa de juros para tentar amenizar os efeitos causados pela epidemia de coronavírus, assim como já foi feito em países como Japão, Canadá e Estados Unidos.

O coronavírus e a epidemia da desvalorização

O temor globalizado sobre o coronavírus também ajuda a explicar a escalada do dólar por aqui. Apesar de termos pouco mais de 200 pacientes infectados pelo vírus no Brasil, a expectativa é que os casos aumentem de forma vertiginosa no país. Além disso, há mais de 150 países com casos confirmados e milhões de pessoas em quarentena pela doença que já matou milhares de vítimas.

O crescimento do PIB brasileiro projetado para este ano já está sendo revisto por conta da redução da atividade industrial em decorrência do coronavírus. Com o epicentro do vírus na China, a economia de um dos nossos parceiros comerciais mais importantes fica comprometida e os efeitos provavelmente chegarão até aqui. “Esse é um fenômeno difícil de ser mensurado. É praticamente impossível fazer qualquer projeção com uma situação dessa”, diz Cristiane.

Os Estados Unidos em boa fase

O cenário americano também ajuda a explicar a desvalorização do real. Enquanto passamos por um período de turbulência, os americanos vivem uma fase de pleno emprego e economia com fôlego -- e divulgaram uma nova redução na taxa de juros, para um índice entre 0 e 0,25%, segundo corte em duas semanas. Além disso, os cenários das próximas eleições se mostram favoráveis às expectativas do mercado e as previsões de crescimento são positivas. “Nesse contexto, o fortalecimento do dólar, contribui ainda mais para a depreciação da nossa moeda”, diz a economista do Banco Ourinvest.

Recentes notícias como a queda no preço do petróleo também impactam na cotação. Aliás, como o dólar é uma das medidas de aversão a risco, é natural que se comporte de forma imprevisível e cause oscilações, especialmente, em mercados emergentes.

Enquanto trafegamos por esse mar de notícias que mudam o rumo das economias globais diariamente, os importadores precisam lançar mão de ferramentas como hedge cambial e os exportadores celebram a alta. Ao que tudo indica, a moeda americana ainda reserva muitas altas - e surpresas.

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Fernanda Consorte

Economista-chefe

Economia para todos é o lema da Fernanda. Com ampla experiência no mercado financeiro, conhecimento técnico apurado e linguagem simples, a autora contribui para a tomada de decisão de clientes e empresas que necessitem desse suporte.

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Cristiane Quartaroli

Economista

Economista formada pela USP, com mais de 15 anos de experiência nas área de Economia e Finanças, com foco em análise macroeconômica, resultando em amplo conhecimento do mercado bancário.

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Welber Barral

Estrategista de Comex

Mestre em relações internacionais (USFC), Doutor em direito internacional (USP) e pós-doutor em Direito do comércio internacional (Georgetown University), Barral foi secretário de Comércio Exterior do Brasil de 2007 a 2011. Atualmente é, também, diretor no Departamento de Comércio exterior da FIESP e conselheiro da Câmara de Comércio Americana.

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