Especial

A querência do equilíbrio

O ser humano está acostumado a constâncias. Poucos são aqueles que gostam da novidade, da mudança de rota compulsória, e chuto dizer que mesmo esses devem ter um porto seguro, uma casa de mãe para voltar de vez em quando. Vejam, meus amigos, há 1 mês escrevi que devíamos nos deixar levar pela efemeridade do otimismo local dos mercados, embora meus pés estivessem dois passos atrás, como eu mesma deixei claro. E hoje eu venho aqui para lhes falar de não se contagiarem tanto pelo mau humor imposto nesses últimos 10 dias, pois há saídas. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra.  

E na busca desse equilíbrio, vamos entender o que está atrás dessa onda pessimista que se instalou e levou a taxa de câmbio a patamares temíveis de US$/R$ 4,00. Primeiro, temos que nos colocar em nosso lugar: somos emergentes. E aí, meus queridos, é difícil nos concentrarmos somente na nossa vida comezinha, quando tem mundão ditando os fluxos financeiros. E todo aquele entusiasmo instalado em julho ocorreu sem fluxo financeiro estrangeiro no Brasil. A conclusão é que bastou apitar o primeiro sinal de incêndio, para o mercado sair correndo atrás do seu porto seguro, e o dólar se fortaleceu.

Esse apito foi acionado pelo presidente Trump, anunciando novas tarifas para a importação de produtos chineses em 1º de agosto, mais um capítulo dentro da série – Guerra Comercial EUA x China. Só que nesta temporada, a China voltou fortalecida e retaliou, depreciando sua moeda. Pronto! Chegou a aversão ao risco para mercados emergentes.

E nesse ínterim, observou-se Inversão da curva de treasuries pela primeira vez em 12 anos. Explico: esse movimento dá-se quando o rendimento pago a investidores com aplicações no curto prazo fica mais alto que os pagos para posições de longo prazo. E esse movimento é historicamente um precedente de recessão. De fato, por mais que a economia dos EUA tenha mostrado dados ainda fortes, desde o início do ano já há uma expectativa de que, em algum momento, essa guerra comercial combinada com uma inflação fraca nos países desenvolvidos, vai levar a uma recessão global! Lembro bem de uma pesquisa veiculada em janeiro em que 25% do mercado financeiro global já esperava uma recessão em meados de 2020.

Uma recessão global, movida por EUA e China, sem dúvidas aumenta ainda mais o movimento de aversão ao risco e saída de fluxo de capitais dos pobres países emergentes. É isso que tem acontecido nesses últimos dias.

Que nos resta? Bom, desculpem-me vangloriar neste momento de dor, mas essa era uma bola cantada desde o início do ano.  Uma saída seria a reversão, mesmo que ilusória, desse cenário a partir de uma conciliação entre EUA e China, ou ao menos a divulgação de uma nova temporada da série, gerando expectativas positivas. E aí, pouco a pouco, os investidores sairiam do porto seguro para se aventurarem.  

Ou — a alternativa de que mais gosto — é o Brasil tentar se destacar na multidão, e ao menos gerarmos boas notícias suficientes para equilibrar o cenário internacional. Em outras palavras, se fizemos o dever de casa direitinho, continuarmos investindo tempo e disposição em reformas e ganhos de infraestrutura, o Brasil pode ser uma boa história para contar num mundo prejudicado.

Ora, se tivermos isso, a atração de capital mesmo a taxas de juros historicamente baixas (estima-se que a taxa Selic vá a 5,25% a.a.), temos chances de ganhar um pouquinho de dinheiro do mundo, seja para portfólio de mercado, seja para investimentos. E conseguirmos equilibrar parte desse mau humor aí. #vemgringos

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Estrategista de Comex

Mestre em relações internacionais (USFC), Doutor em direito internacional (USP) e pós-doutor em Direito do comércio internacional (Georgetown University), Barral foi secretário de Comércio Exterior do Brasil de 2007 a 2011. Atualmente é, também, diretor no Departamento de Comércio exterior da FIESP e conselheiro da Câmara de Comércio Americana.

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