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4 possíveis desdobramentos da guerra entre Rússia e Ucrânia para o Brasil

Além da grave questão humanitária e política, o conflito entre Rússia e Ucrânia têm efeitos diretos no comércio exterior global. Para mapear os possíveis desdobramentos para o Brasil, é necessário compreender a relevância dos dois países na economia mundial.

De acordo com um levantamento do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), os principais produtos exportados pela Rússia somaram US$1,1 trilhão entre 2016 e 2020, com destaque para o petróleo bruto e derivados e combustíveis fósseis (gás natural, carvão), que correspondem a 56,9% do total exportado pelo país e 11% das exportações mundiais desse produto.

Além dos combustíveis, destacam-se o alumínio, com 2,1% das exportações, e o trigo, com 2% das exportações russas e 16% das exportações mundiais.

Já a Ucrânia conta com uma menor participação nas exportações mundiais, totalizando US$100,1 bilhões em remessas, sendo que 23,9% das vendas externas ucranianas são compostas por óleo de girassol, milho e trigo, seguida pelo minério de ferro (7%). No comércio exterior, as vendas de óleo de girassol, milho e trigo correspondem a 19%, 4% e 3% das exportações mundiais, respectivamente.

Para o Ipea, entre os pontos que mais geram preocupação em nível mundial está o aumento generalizado do preço do barril de petróleo, pressionando a inflação mundial do produto, que já está bastante elevada.

Também é previsto que o aumento do preço dos grãos tenha efeitos sobre a segurança alimentar, principalmente no caso da proteína animal, em função do comportamento do milho no mercado internacional.

Enquanto o conflito político segue punindo as populações locais e o desejo de pacificação aumenta, o Brasil começa a assistir os efeitos do confronto do outro lado do mundo. O Blog Ourinvest mapeou os principais pontos para ajudar importadores e exportadores a compreenderem melhor o momento. Confira a seguir:

1. De olho nos fertilizantes

Rússia e Bielorrússia respondem por 30,5% das exportações de fertilizantes potássicos e o Brasil é o maior importador mundial não apenas do total de fertilizantes como de cada um deles (nitrogenados, fosfatados e potássicos), seguido por EUA, Índia e China.

Mais da metade dos produtos russos adquiridos pelo Brasil são fertilizantes potássicos, nitrogenados e compostos, que correspondem a 22,9%, 17,5% e 16,5% do total, respectivamente. Portanto, o Brasil pode enfrentar dificuldades para substituir a oferta daqueles dois países por outros fornecedores, dado o seu peso na balança comercial entre os países.

De acordo com a Anda (Associação Nacional para Difusão de Adubos), os estoques disponíveis em março deste ano devem durar até junho.

A associação afirma que não será fácil para o Brasil substituir os fornecedores a tempo do plantio que se iniciará no segundo semestre, dado o peso do país nas importações totais desse produto e a forte dependência de Rússia e Bielorrússia.

Isso pode não apenas afetar preços como reduzir significativamente a safra 2022/2023 em alguns produtos, tanto pela redução da área plantada como da produtividade.

Um desdobramento controverso do assunto é o avanço do projeto de lei 191/2020 na Câmara dos deputados, que trata da mineração em terras indígenas. O ministro da Agricultura, Marcos Montes, disse que a exploração mineral de terras indígenas para fertilizantes é estratégica.

O projeto deve ser votado nos próximos dias com o objetivo de tornar o Brasil menos dependente de importação de fertilizantes e é amplamente criticado por ambientalistas.

2. Custos de fretes e operações comerciais

Segundo Welber Barral, estrategista de comércio exterior do Banco Ourinvest, as questões práticas de importação e exportação já estão enfrentando problemas.

“Já temos empresas brasileiras que são importadoras de fertilizantes da Rússia e estão com dificuldade de fazer pagamentos e operações de crédito porque os bancos russos foram sancionados”, explica.

Além disso, as sanções impactam no tempo de entrega e custo do frete. “Vários navios russos estão sob  sanção e não conseguem transitar. Com isso, é necessário encontrar outras formas de transporte e há mais custos e possíveis atrasos nas entregas”, diz Barral.

3. Grãos em pauta

Outro desdobramento do conflito que pode afetar as importações brasileiras é em relação ao trigo. O Brasil é o quinto maior importador mundial do cereal e, mesmo que não importe da Ucrânia, pode ser indiretamente afetado pela pressão na oferta sobre os países que fornecem a commodity para o Brasil, como a Argentina que é responsável por 76,4% das importações brasileiras.

Já as exportações brasileiras podem ser afetadas, principalmente no mercado de trigo. “Há um efeito indireto na elevação dos preços das commodities, como o trigo, e isso reflete até na inflação do preço do pãozinho no Brasil”, explica Barral.

Além disso, Ucrânia, Rússia e Brasil são grandes exportadores de milho, o que significa pressão sobre a oferta brasileira em um cenário de interrupção dos envios dos dois países envolvidos na guerra.

A safra brasileira de milho de 2021/2022, apesar da quebra da produção no sul do país, deverá ficar quase 30% acima da safra anterior, anormalmente baixa, e o país pode alcançar o mercado chinês nas importações do cereal.

Apesar de ser grande parceiro da China em diversos produtos agrícolas, o Brasil não exporta milho para a China, enquanto a Ucrânia foi seu maior fornecedor, responsável por 67,72% do abastecimento chinês entre 2016 a 2020. É possível também que o país possa se beneficiar por uma alta dos preços do produto, pela escassez de oferta.

4. Preços mais altos no Brasil

Na iminência da ameaça à segurança alimentar dos países que dependem das exportações da Ucrânia e Rússia, pode ser que haja uma janela de oportunidade aos produtos brasileiros, como alternativa para amenizar a falta de suprimentos.

Segundo o Ipea, por outro lado, o aumento da participação brasileira nos mercados internacionais de soja e milho podem representar um problema de abastecimento interno, com pressões inflacionárias sobre os preços dos alimentos, que já apresentam tendência de alta no mercado nacional. Vale lembrar que o preço do milho é decisivo para a formação dos preços de carnes de suínos e frangos.

“O fato é que estamos falando de produtos que afetam as cadeias produtivas do mundo e essa instabilidade não é boa para ninguém. Apesar de a América Latina não ser a região mais afetada com esse conflito, com certeza estamos vendo os reflexos da economia global por aqui”, finaliza Barral.

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Economista

Economista formada pela USP, com mais de 15 anos de experiência nas área de Economia e Finanças, com foco em análise macroeconômica, resultando em amplo conhecimento do mercado bancário.

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Welber Barral

Estrategista de Comex

Mestre em relações internacionais (USFC), Doutor em direito internacional (USP) e pós-doutor em Direito do comércio internacional (Georgetown University), Barral foi secretário de Comércio Exterior do Brasil de 2007 a 2011. Atualmente é, também, diretor no Departamento de Comércio exterior da FIESP e conselheiro da Câmara de Comércio Americana.

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